Identidade & trabalho: o niilismo profissional.

Trabalho.

Illustration by Henrietta HarrisO mimetismo é a face exposta do cancelamento da identidade. Desejamos ser como os outros. Procuramos as nossas convicções nas ideias aceitas (Flaubert), a orientação da nossa conduta nas convenções estabelecidas (Sartre). Procuramos nos olhares a aprovação da nossa aparência. Procuramos na forma como nos tratam a admiração ou o temor que despertamos (Jaspers).

Duas situações profissionais concorrem para o esgotamento da identidade. O associacionismo formalizado e a pasteurização dos ofícios.

Com a conquista da livre associação sindical ganhamos força, mas perdemos a referência de quando o consórcio se atrelava à uma profissão. A forma jurídica coletiva que aí está assegura mais contra o risco do desemprego em massa do que contra os riscos individuais da dignidade e da segurança. Refere-se à expectativa de manter o trabalho, não ao direito de ter um trabalho.

A equalização dos ofícios nos assenta em um “espaço-tempo aberto”, onde não há características estáveis. Mutilamos o corpo com pierciengs, com tatuagens, com músculos hipertrofiados. Nos vestimos com desconforto. Queremos parecer o que não somos, o que cremos que gostariam que fossemos. Somos atraímos pelo agrado, não pelo encanto.

Na era digital podemos escolher uma identidade, aferrar-nos a ela. Podemos abandonar a personalidade que assumimos ou a renegar. Usamos um perfil profissional como usamos uma roupa. O trabalho nos assinala no espaço e no tempo, mas não mais nos identifica na cultura (Lyotard). Na tentativa de sermos aceitos, nos extraviamos de nós mesmos. Nos incluímos pela forma, não pelo conteúdo. Proscrevemos o Eu na esperança de que outros creiam que somos o que não somos; no receio que percebam que não sabemos o que somos; no terror de se darem conta de que nada somos.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Flaubert, Gustave (2007) Dicionário de ideias feitas. Tradução Cristina Murachco. São Paulo. Editora Nova Alexandria

Jaspers, Karl (1967). Psicología de las concepciones del mundo. Trad. Mariano Marin Casero. Madrid. Editorial Gredos

Lyotard, François (1990). Pérégrinations: loi, forme, événement. Paris. Gallimard.

Sartre, Jean-Paul (1986). L’imaginaire (1940), éd. par Arlette Elkaïm-Sartre. Paris. Gallimard
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