Bergson: a intuição heurística.

Epistemologia

https://i2.wp.com/www.coreyhelfordgallery.com/images/products/FIRST-OF-DAYS-2004-AP-2-OF-2-01.jpgAo darmos de comer a uma criança, abrimos a boca em um movimento simpático. A intuição é este tipo de experiência. Algo que não comandamos e que não se destina a convencer, mas a comunicar. É a sympatheia, que nos leva diretamente ao outro e à nós mesmos a partir daqueles que nos cercam.

O intuitivo se dá entre o instintivo e o intelectual. Corresponde ao conhecimento direto no e pelo espírito, como ocorre na apreciação artística ou na experiência mística religiosa. Esta participação da consciência em um movimento que lhe é exterior rege as três fontes da heurística de Henri Bergson (Paris, 1859 – 1941): a problematização, a diferenciação e a apreensão da realidade no tempo.

A problematização corresponde tanto à descoberta de questões inéditas como à visão inédita de questões convencionais. Opera eliminando falsos problemas, como o da redução da felicidade ao prazer, ou como a mensuração da qualidade de algo pela quantidade da causa física que o produziu. Na problematização, o que se deve intuir são temas que não sejam negativos, inexistentes ou confusos.

A segunda fonte da heurística de Bergson, a diferenciação, consiste em clarificar as indistinções de natureza ou de articulação do real. Trata-se de decantar, de analisar, de dividir por intuição, e não por intelecção reflexiva. Por exemplo: vemos a cor laranja como a mistura química ou luminosa entre o vermelho e o amarelo. A lembrança do processo da sua geração impede que a vejamos como é: uma cor como as outras, com natureza própria.

A terceira fonte de Bergson, a apreensão direta do real no tempo, só é possível mediante a intuição. Isto porque intuir é algo “fora” e “além” da razão. Trata-se de reconhecer que certas ramificações da ciência, como a Teoria das Cordas, ultrapassaram qualquer possibilidade de expressão matemática. De aceitar que a natureza transcende a articulação codificada inteligível.

Bergson demonstrou que não podemos analisar neutra e friamente a nós mesmos. Que não podemos nos distanciar do nosso ser, de algo que experimentamos diretamente. Misteriosamente, no mesmo ano em que Bergson explicou a sua ideia de intuição em uma conferência no Congresso Filosófico de Bologna, Kafka anotou em seu Diário:  “… aquilo que for escrito … esmagará a intuição a ponto de apagar o sentimento verdadeiro e de deixar no lugar dele uma versão … tardiamente reconhecida como sem valor“.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Bergson, Henri (2017). L’intuition philosophique – 1911, In Œuvres complètes, La pensée et le mouvant. www.arvensa. Arvensa Éditions.

Kafka, Franz (2001) Diário 12/11/11. In Obras Completas. Traducciones de Andrés Sánchez Pascual y Joan Parra Contreras. Barcelona. Editorial Galaxia Gutenberg.

 

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