Heurística – Nostradamus: a mântica profética de Hermes.

Epistemologia.

A advertência é antiga: Jerusalém mata seus profetas, Atenas, seus pensadores. Por isto os profetas bíblicos professavam, e não profetizavam. Cautelosos, voltavam-se para o passado, para a Aliança do Povo com Yaveh e para o que ocorre (não há tempo futuro em hebraico e em aramaico) com aqueles que a rompem. Apelavam à religião interior, à verdade inscrita nos corações (Jeremias, 31).

A exceção foi José do Egito, que podia prever o futuro. Chamou sobre o si o ódio porque prenunciava, não se limitava a anunciar. A história de José, vendido como escravo pelos irmãos ao egípcio Putifar, resgatado e elevado à vizir pelo Faraó, não é inconcebível. O que o profeta diz tem poder performativo (faz com que aconteça), e poder preventivo (evita que aconteça). Difere das fantasmagorias dos videntes e adivinhos. Corresponde à conjectura “artificial” dos augures, dos harúspices e dos nigromantes. Sobrevive na heurística dos astrólogos e economistas.

A adivinhação profética é, das artes imemoriais, a de mais fácil êxito. Nem é preciso inventar um futuro. Basta seguir os passos do mestre provençal Michel de Nostradamus (1503-1566). Sua famosa obra, “As Profecias”, é a fonte inspiradora de adivinhos, tecnólogos e consultores de todas as extrações. Repousa na habilidade de ser rigoroso e preciso sobre temas vagos e genéricos. Por exemplo, vaticino que algo em vermelho acontecerá nas próximas datas primas a contar do momento em que se lê este texto. De hoje a 1, 2, 3, 5, 7 …. dias uma roupa, um símbolo, um avião, um lápis, ou qualquer outra coisa vermelha marcará nossa vida. A profecia funcionará por três razões. A primeira se firma na sensibilidade coletiva assombrada por inquietações recorrentes.  A segunda, vem de que algo em vermelho, ou em azul, ou em bege, ou em qualquer outra cor que se escolha, sempre está acontecendo em alguma data presente, passada ou futura, seja em dias primos ou não. A terceira, decorre de que o crédulo estará prestando atenção em cores, datas e eventos, que, sem a profecia, lhe passariam despercebidos.

Os versos de Nostradamus não têm valor profético. Jamais algum de seus intérpretes pode prever algo antes que acontecesse. Só referenciar aquilo que já tinha acontecido. Apesar disto, a mântica de Hermes continua a ser largamente utilizada, não como ciência posta, mas como fraqueza antropológica: a humana necessidade de ultrapassar as relações causais ao examinar quantidades, indicadores, índices, marcadores e vestígios, estabelecendo analogias e prevendo consequências.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Crouzet, Denis (2005) Les guerriers de Dieu : La violence au temps des troubles de religion (vers 1525- vers 1610). Seyssel. Editions Champ Vallon

Zini, Fosca Mariani (2015) Mantique. In, L’Interprétation: un dictionnaire philosophique. Sous la direction de Berner, Christian et Touard, Denis. Paris. Librairie Philosophique J. Vrin.
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