Heurística – Freud: a transposição.

Epistemologia.

interpretazione dei sogni  freud  jung“…em sonhos, …, muitos homens deitaram com a própria mãe”. Nesta fala, a de número 1105 de Édipo Rei, Freud se inspirou para descobrir o complexo de Édipo. No clássico Über der Natur, para inventar sua profissão.

O método longitudinal de Freud deriva da exegese talmúdica, da aceitação judaica do espírito oculto na Letra, da tradição alemã das “ciências do espírito”. Mas a força heurística da psicanálise repousa na imensa cultura literária do seu fundador.

Transpondo ideias de obras como o Sapho de Daudet, que trata do ato sexual como sentimento de ascensão, de “O sobrinho de Rameau” de Diderot e transferindo conceitos como o da polarização entre a “beleza corrupta” e a “fealdade virtuosa” no caráter feminino, do Adam Bede, de George Eliot, Freud descobriu que os sonhos não são presságios nem são sobrenaturais, mas manifestações latentes de sofrimentos psíquicos.

Na transposição, os textos ganharam status clínico. Não como autoritas que explicam, mas como indutores da reflexão. Desvelaram o que há por trás dos atos falhos, dos lapsos, dos sintomas. Fizeram convergir a pesquisa para a descoberta de que o sonho e as imagens dos acontecimentos cotidianos são manifestações do inconsciente.

Freud não foi o primeiro, muito menos o único, a tomar de empréstimo ideias e atributos de uma área de saber para os aplicar em outra. O telegrafista britânico Oliver Heaviside (1850 -1925) extraiu os algebrismos que levam seu nome de símbolos trigonométricos, que nada tinham a vem com cálculo operacional a que chegou. No outro extremo da ciência, a epilação estética eletrônica teve origem no radar, na aplicação de impulsos de frente rígida a alta tensão, que destroem objetos pela interrupção de constantes dielétricas.

A heurística da transposição é arriscada. Mas seus méritos não são pequenos. A psicanálise pode ser aceita ou rejeitada como ciência, mas sua inventividade revolucionária tirou do obscurantismo dogmático os saberes sobre a mente e sobre o corpo que vigoraram até meados do século passado.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Daudet, Alphonse (1992). Sapho. Alienea. Aix-en-Provence.

Diderot, Denis (1979) O sobrinho de Rameau. Trad. Marilena de Souza Chauí, J. Guinsburg. São Paulo. Abril Cultural

Eliot, George (Mary Ann Evans). (2017). Adam Bede. Prabhat Prakashan.  (eBook Kindle)

Freud, Sigmund (1986). Escritores criativos e devaneio (1908 -1907); Construções em análise. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro. Imago Editora.

Freud, Sigmund (1986). A interpretação dos sonhos. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro. Imago Editora.

Sophocles (1952). Oedipus de King. Translated into English prose by Sir Richard C. Jebb. In, Great books of the western world. Vol 5. Chicago. The Enciclopædia Britannica, Inc.

Steiner, George (1978). Language and psychoanalysis (1976). In, On difficulty and other essays. New York. Open Road.
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