TRABALHO: A naturalização do trabalho dependente.

Trabalho.

O ser humano, escreveu Foucault, “… é uma invenção que a arqueologia do nosso pensamento mostra ser de data recente”.

De fato, a forma como nos concebemos é situada. Tende ao deslocamento e à obsolescência. Em cada época e lugar foram engendradas teorias, explicações e conceitos sobre a natureza do homem e, com maior variação, sobre a sua forma de agir. Dentre estas invenções, figura a do trabalho: a ideia de um conjunto de operações regulares e reiteradas, direcionada à criação de bens e valores.

A modalidade trabalho remunerado foi concebida em função das necessidades organizativas da economia. Mas os traços distintivos do entendimento de normalidade da vida social – estabilidade precária e plasticidade necessária – são, em si, contraditórios. Por isso, no final da Idade Média, uma prótese foi adicionada à invenção original: o emprego, a formação em que se abdica da plasticidade em benefício da estabilidade.

Velho de séculos, o trabalho dependente criou tabus que o sustentam para além da lógica econômica: o de discutir a utilidade do que fazemos e o de questionar as implicações ético-sociais do que contribuímos para produzir.

É característico destas interdições que ao perguntarmos ao operário, ao funcionário ou ao servidor sobre o seu trabalho, os elementos eficazes das funções sejam relatados como acessórios. A capacitação, a subsistência, o conhecimento das normas e dos passos, as técnicas, a afetividade, as tecnologias, as operações, as regras de convívio e as relações hierárquicas se mesclam e são consideradas todas naturais.

Parece irrefutável que a naturalização do trabalho assalariado decorre do incômodo que as alternativas imporiam à classe dos contentes e do duplo risco de expor a artificialidade do instituto e a vacuidade da existência profissional.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Cf. Descola, Philippe (2014) La composition des mondes. Entretiens avec Pierre Charbonnier. Paris. Flamarion

Foucault, Michel (2007). As palavras e as coisas: uma arqueologia das ciências humanas. Tradução de Salma Tannus Muchail. São Paulo. Martins Fontes.

 

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2 comentários

  1. O texto deste post se inicia com uma referência a Foucault sobre o surgimento da ideia homem como uma invenção do pensamento. (Entre as referências do post está o ‘As palavras e as coisas’ de Michel Foucault.) E logo a seguir no segundo parágrafo do post está o delineamento da figura trabalho, como conceito, listado como uma dessas invenções.

    É razoável esperar que, a partir da notícia de invenção como essa do homem, pelo pensamento, dada sua fundamentalidade, estejamos preparados para um conceito de trabalho para o antes, e um outro conceito para o depois, dela, e desde logo do lado, com, a presença do invento homem, como é óbvio, presente somente no conceito de trabalho de depois da invenção.

    Essa ideia de invenção, pelo próprio pensamento, de entidade dessa envergadura, remete-nos necessariamente a um antes, e um depois dela: estamos diante de uma mudança. E essas mudanças no pensamento e na cultura são justamente a praia de Foucault nesse livro.

    Nele Foucault descreve com generosidade de detalhes o antes e o depois de uma descontinuidade epistemológica ocorrida na cultura ocidental e por ele situada entre 1775 e 1825, da qual resultou o que ele chama de a nossa modernidade no pensamento; e com a ideia invenção-homem presente somente no depois desse evento. Nessa obra Foucault vai bem adiante, descrevendo mais uma mudança, agora para além do objeto, no capítulo X do livro. Em termos das entidades – sujeito (homem) e objeto – Foucault descreve um período ‘aquém’, um período ‘diante’, e um período ‘para além’ dessas duas entidades. A ideia do surgimento da invenção-homem no pensamento demarca os dois primeiros períodos.

    Como Foucault não tirou essas coisas da cartola mas de mudanças que ele detectou na nossa cultura e no nosso ambiente, precisamos entender em que período estamos, e especificamente nas nossas organizações, em que período elas se encontram, quando identificamos conceitos em utilização e propomos alterações.

    Sobre a ideia trabalho abordada no post, ou melhor, sobre as ideias de trabalho que temos.

    Seja lá o que trabalho for, trata-se de uma ocorrência no espaço-tempo de 4 dimensões x, y, z e t; e o próprio delineamento do conceito no texto do post também sugere que seja assim, pelas ideias que reúne.

    Preliminar rápida: sobre ocorrências no espaço-tempo, imagens, textos, Imaginação e Conceituação

    Vilém Flusser, no livro ‘Filosofia da caixa preta’, capítulo ‘A Imagem’, referindo-se à imagem tradicional (em uma distinção muito interessante que ele faz entre esse tipo de imagens e as imagens técnicas, as produzidas por aparelhos, pelas quais estamos cercados), define:
    . Imaginação como a capacidade reversível que todos nós, humanos, temos, de fazer e interpretar imagens de ocorrências no espaço-tempo;
    . e Conceituação, como outra capacidade também reversível que temos, e que nos permite fazer e interpretar textos a partir de imagens anteriormente construídas para ocorrências no espaço-tempo.

    E completa dizendo que imagens que, interpretadas não nos levam de volta às ocorrências no espaço-tempo de onde provieram; e textos que decodificados não nos reconduzem às respectivas imagens, e que ainda assim, continuarem sendo usados, então tais imagens configuram idolatria e tais textos, textolatria. Porque não servem de orientação para o homem, no mundo, mas funcionam, antes, como biombos entre mundo e homem.

    O argumento desde comentário

    Tomando o fragmento de texto do post ‘trabalho como um conjunto de operações regulares e reiteradas, direcionadas à criação de bens e valores’, e usando a minha própria imaginação, vejo que esse texto não me remete a qualquer imagem, e menos ainda, a imagem para uma ocorrência espaciotemporal que possa ser chamada trabalho. Vejo uma certa analogia entre o conceito de trabalho vazado nesses termos, e a afirmação de que um estádio está cheio porque entraram mais pessoas do que saíram dele. Dito este, que também não nos leva ao evento que motivou o acontecido o estádio; neste exemplo falta o que deu origem à forte acorrência de público ao estádio, como no fragmento de texto, falta o que seja trabalho.

    Sabendo, por Foucault, de dois princípios filosóficos para trabalho, o de Adam Smith (1776) e o de David Ricardo (1817), esse texto do segundo parágrafo do post poderia ser relacionado a qualquer um deles, e a nenhum deles, porque é nada específico, não discriminativo, genérico demais. Ele é composto de ideias, elementos, coisas que estão presentes nos dois conceitos dos dois lados antes e depois da invenção, sem permitir a distinção entre eles.

    Apenas para ilustrar, tomando – já na nossa modernidade no pensamento como diz Foucault – o texto do princípio de trabalho devido a David Ricardo, que Foucault chama de dual com ótimas razões, (veja o Cap. VIII – Trabalho, Vida e Linguagem, tópico II. Ricardo) minhas funções reversíveis de conceituação e imaginação funcionam perfeitamente, e posso ver, com uma imagem, a ocorrência no espaço-tempo que Ricardo tinha na cabeça, com clareza. Essa imagem nada tem a ver com o conceito do segundo parágrafo deste post.

    Por outro lado, depois de entender o funcionamento do pensamento clássico, posso também tomar o princípio de trabalho de Adam Smith – segundo Foucault, um princípio monolítico – e a partir do funcionamento e desse texto, chegar a uma imagem do que Smith enxergava, em uma ocorrência no espaço-tempo bastante diferente da que o princípio de Ricardo inspira.Também aqui o conceito do segundo parágrafo do post fica devendo.

    Acho que essa dificuldade na imaginação e conceituação de trabalho no antes e no depois da invenção-homem prejudica o restante da argumentação no post.

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