TRABALHO: Nietzsche – O trabalho como veneno e como antídoto.

Trabalho.

Nietzsche defendeu duas teses antagônicas sobre a “laboriosidade”: a de que o trabalho é um veneno, e a de que o trabalho é um antídoto.

Como veneno

O homem comum, que aceita as coisas como lhes vem, que adquiriu luzes através da leitura dos jornais, que aprecia a bela arte e a natureza, tem, para Nietzsche, todo o direito à idiotia. O sistema lhe adormeceu os “instintos selvagens”, lhe vedou o acesso aos glaciares, à música de Wagner, à pura loucura da arte e do intelecto livres (1983; 30§ 81).

Os trabalhadores deste tipo foram envenenados. Tiveram os instintos individualizantes destruídos. Tornaram-se massa. Não podem chegar a ser eles mesmos. Não têm como saber que a sua existência é intelectualmente miserável e eticamente injusta. Foram instruídos para serem escravos, não educados para serem senhores (1983; 34:83).

Nietzsche apresenta o trabalho como um veneno contra a individualidade. O trabalho, disse, é a “melhor polícia”: detém o desenvolvimento da razão e do anseio pela independência. Proporciona um objetivo pequeno, e satisfações regulares e fáceis. O trabalhador é uma pessoa que é usada. Os que louvam o trabalho – a Igreja, os socialistas – são aliciadores. Fazem com que o indivíduo viva esperando por algo que vem de fora, impedindo que seja senhor de si mesmo. (2004; 173 (126), 206 (151))

Como antídoto

Em Humano, demasiado humano, Nietzsche apresenta o trabalho como um antídoto para o tédio. No aforismo 391(178), do Livro III, afirma que as pessoas que nunca aprenderam a trabalhar, nunca têm tédio. Em 611(258) é mais explícito: acostumamo-nos a trabalhar, e quando não temos mais necessidade de trabalhar, nos enfadamos. Para escapar ao tédio, ou bem se trabalha sem necessidade ou se inventa o “jogo”, o bálsamo da atividade lúdica.

Também no segundo volume de Humano, demasiado humano (§ 47; 34), Nietzsche lembra que os muito laboriosos conseguem tempo livre e depois não sabem o que fazer com ele. Na parte intitulada O andarilho e sua sombra (150; 231), dá o exemplo de Haendel, que foi um grande e ousado criador, mas quando entediado compunha sem criatividade. Finalmente, no prólogo de Assim falou Zaratustra (§ 5: 34), quando este organiza a sua pregação, refere-se àqueles que “…ainda trabalham porque o trabalho é um passatempo. Mas cuidam de que o passatempo não canse”.

Nietzsche é vago e misterioso, mas não é contraditório. Faz sentido evitar sermos envenenados pelo trabalho tedioso, como faz sentido usarmos o trabalho como contra-veneno para o tédio. O que não faz sentido é amarmos o trabalho, gozarmos do que, em Ocaso dos ídolos, na parte que intitula incursões de um intemporal (§9;1;65), Nietzsche denominou de “alegria socializante de feder”.

Todos vós, que amais o trabalho desenfreado (…), o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois.
Assim Falava Zaratustra.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Nietzsche, Friedrich (1981). Assim falou Zaratustra; Tradução de Mario da Silva; Rio de Janeiro; Civilização Brasileira.

Nietzsche, Friedrich (1983). El ocaso de los ídolos; Tradução e prólogo de Roberto Echaverren; Barcelona; Tusquets Editores.

Nietzsche, Friedrich (2004). Aurora. Trad. de Paulo César de Souza, São Paulo. Companhia das Letras.

Nietzsche, Friedrich (2008). Humano, demasiado humano. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo. Cia. das Letras.
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