EPISTEMOLOGIA: Heurística – Fatalismo: Encontro em Samarra.

Epistemologia.

Em Bagdá, faz tempo, Kaled ben Youssef tropeçou em uma mulher. Ela o olhou com estranhamento. Kaled viu naquele olhar uma ameaça. Com medo, viajou imediatamente para a longínqua Samarra, cidade grande e confusa, onde pretendia se esconder. A viagem durou o dia inteiro. À noite, na entrada de Samarra, Kaled viu a mesma mulher. Surpreso, foi até ela e lhe perguntou a razão daquele olhar. A mulher, que era a Morte, lhe respondeu: fiquei admirada porque ainda pela manhã você estava em Bagdá e tínhamos um encontro marcado para esta noite em Samarra.

Se tudo o que se pode saber e tudo o que pode nos acontecer já está escrito, o que leva um fatalista a tentar impedir o que não pode ser evitado, a descobrir o que não pode ser modificado?

Para compreender o impulso heurístico do determinismo fatalista é preciso distingui-lo dos determinismos metafísico e científico. Estes abraçam a crença de que a ação humana encontra motivo determinante no tempo que a antecede, de tal maneira que não está sob domínio da razão quando se efetua, mas que se pode deduzi-lo. Seus fundamentos estão na causalidade do acontecido (historicismo), do que pode acontecer (inducionismo, probabilismo) ou na intelecção dos desígnios de uma vontade superior e externa.

Já o fatalismo combina o destino individual e o destino social. Sua origem se perde no tempo. Pode ser rastreado desde a Antiguidade mais remota. Está em orientações pré-filosóficas, no pensamento asiático, no teatro grego, em algumas crenças religiosas. Abraça a doutrina de que os acontecimentos são fixados previamente, de maneira que não é possível alterar seu curso. Supõe uma causalidade e um finalidade não acalcável pela razão.

A convicção fatalista pareceria anular todo o impulso heurístico. Mas não é o que se passa. Ao longo da história, muitas descobertas dos filósofos, dos alquimistas, dos cabalistas, dos exegetas religiosos e dos sábios pré-científicos derivaram da certeza de que tudo o que foi, é ou será está escrito em um Livro.

Kaled pressente e questiona porque como fatalista tem a mente desbloqueada para a causalidade. O poder heurístico do fatalismo reside no estímulo ao desejo de saber o que é e o que será. Funciona porque o que incita a mente é o oculto, o ignorado e o que virá a ser, não o manifesto, o sabido e o que já foi.

UTILIZE E CITE A FONTE.
William Somerset Maugham (1933) W. Somerset Maugham, Sheppey - a Play in Three Acts. London: Heinemann.
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