EPISTEMOLOGIA: Dialética e epistemologia.

Epistemologia.

350-escher

Hegel torneou o pensamento de Heráclito até transformá-lo em um automatismo inexorável. Convenceu-se, e a muitos, de que o conhecimento sobre o homem e a sociedade nasceria da apreensão de um fluxo dialético de ocorrências contraditórias. 

A marcha da realidade seria descrita por meio de um discurso lógico, um discurso em que uma posição teórica produziria inevitavelmente sua contrapartida. Do jogo de posição e contraposição – tese e antítese – destes elementos surgiria algo novo, uma nova tese, que, inevitavelmente, produziria uma nova antítese, e assim por diante. 

Para que a dialética tivesse acolhida como método, foi necessária a admissão de duas crenças filosóficas improváveis (não passíveis de serem provadas): a da anima mundi e a da nulidade racional das singularidades e do acaso.

A Anima mundi (alma do mundo) é um conceito cosmológico. A convicção de que existe um espírito regente do universo, pelo qual o pensamento sobrenatural pode manifestar-se. Sua origem é o motor imóvel (asynkínitos kínisis) de Aristóteles

O exemplo mais conhecido desta convicção é o comentário sobre a entrada de Napoleão, em 1806, em Jena. Hegel escreveu ter visto “a alma do mundo a cavalo”. Para ele, os 16.000 mortos e o dobro de aleijados na Batalha de Jena–Auerstedt teriam um propósito, e um propósito inquestionável, já que só conhecido pela divindade.

A segunda crença, a da nulidade racional do acaso, é corolário da anima mundi. Reza que, se a natureza e a história fazem um sentido, este sentido deve ter uma direção, isto é, a natureza e a história não conformariam uma sucessão de acontecimentos acidentais, mas seriam fruto de um encadeamento lógico-dialético, uma articulação de eventos que geram sínteses. Este servomecanismo se aproximaria mais e mais do objetivo, até alcançar o absoluto, o empíreo, o socialismo, a redenção ou o que quer que norteasse o Mundo e a História. 

O exemplo mais conhecido desta convicção está nos textos de Marx em que expõe a inevitabilidade do esgotamento e alternância dos modos de produção. Para os que seguem esta forma de pensar, o simplismo do esquema, as superposições, o entremeio, as relações não econômicas e a dificuldade de descrever os meios de produção da nossa época são irrelevantes.

Em termos cognitivos, as premissas correlatas da anima mundi, da inexistência de singularidades e da negação do acaso são condições ásperas para se lidar. Mas o que inviabiliza a dialética como epistemologia generalizável é a impossibilidade de garantir a terceira condição requerida: a da confluência dos fatores em um todo pré determinável. 

UTILIZE E CITE A FONTE.
Burckhardt, Martin (2011). Pequena História das grandes ideias. Tradução de Petê Rissatti. Rio de Janeiro. Tinta Negra

Englund, Steven (2005). Napoleão: Uma biografia política.  Trad. Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro. Zahar

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s