EPISTEMOLOGIA: Acaso – Ésquilo em Alexandria.

Epistemologia.

Ptolomeu, neto do general de Alexandre, governou o Egito entre 246 e 221 AC. Não foi uma pessoa de bem. Presunçoso, forçou uma mudança do calendário para sincronizar o Tempo com o da sua dinastia. Gatuno, acumulou tesouros com pilhagens. Traiçoeiro, negociou com os atenienses a caução de 15 talentos de prata pelo empréstimo do exemplar único da obra completa de Ésquilo. Não a devolveu. Depositou-a na Biblioteca de Alexandria. Cobrou em espécie aos que a quiseram consultar. 

Terceiro do nome, Ptolomeu não tinha nem moral, nem instrução, nem estava preparado para o cargo. Havia chegado à faraó por puro acaso. 

O acaso está presente como enigma em todos os campos de todos os saberes. Um dos arcanos mais insondáveis da zoologia, por exemplo, é o das águias da Europa meridional, que elevam tartarugas até uns cem metros de altura e as deixam cair sobre as rochas para que a carapaça se quebre e as possam devorar. Como as aves vieram a apreender esta habilidade é um mistério que os etólogos ainda não podem decifrar. Um acaso da evolução, como casuais são os alvos escolhidos.  

Aconteceu que, no ano de 456 a.C., nos arredores de Gela, na Sicília, uma destas águias deixou cair a sua tartaruga sobre o que acreditava ser uma rocha. Até aí nada demais. Mas, o que a cem metros de altura parecia ser uma pedra redonda e lisa, era a calva de um ancião grego. Casualmente a de Ésquilo. O mesmo cuja obra seria sequestrada por Ptolomeu. 

Não sabemos o que se passou com a tartaruga. O velho Ésquilo morreu no ato. Ainda que tivesse sido avisado pelo Oráculo que seu fim viria do alto, e que, por isto, jamais saísse de casa em dias de tempestade ou passasse por baixo de escadas ou de árvores, Ésquilo não poderia se precaver contra a casualidade da aquilina pedrada. Chegado à velhice, havia depositado sua obra no Templo de Delfos. Também não teria como antecipar que, por acaso, o pérfido Ptolomeu, duzentos e treze anos depois, a furtasse e guardasse na Biblioteca de Alexandria.

A cadeia de ocorrências fortuitas não cessa neste incidente. Desconhecendo tanto Ésquilo quanto Ptolomeu, oito séculos mais tarde, em 22 de dezembro de 640, o general Amir ibn al-As, acatando ordem direta do Califa Omar, ordenou a queima total da Biblioteca, e, com ela, da coletânea remanescente da obra de Ésquilo. O argumento para a incineração não poderia ser mais imprevisível: os escritos que estão em desacordo com a palavra de Alá são blasfemos; os que estão de acordo, são supérfluos. 

Em pouco mais de um milênio o acaso havia determinado duas perdas inestimáveis: a do artista, atingido mortalmente pela águia, e o da sua arte, roubada por Ptolomeu e incendiada pelo Califa. Uma obra magnífica e extensa. As trilogias, sátiras e peças avulsas escritas por Ésquilo montavam a oitocentas obras. Quis o acaso que hoje restem apenas sete: As suplicantes, Os egípcios, As Danaides, Prometeu Acorrentado e a trilogia Orestiada

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