EPISTEMOLOGIA: A recaída pitagórica.

Epistemologia.

Quando Pitágoras – se é que Pitágoras existiu, e se é que a ideia foi mesmo ele – descobriu que a soma dos quadrados dos catetos de um triângulo retângulo é, invariavelmente, igual ao do quadrado da sua hipotenusa, supôs, mas não pode provar, porque não é verdade, que o triângulo retângulo existiria na Natureza.

Os pitagóricos mantiveram a ilusão de que o Universo é regulado com base em relações de proporcionalidade. Predicaram que as tensões entre polaridades como macho e fêmea, claro e escuro, leve e pesado formam um campo em constante reequilíbrio. Para eles, a ordem do mundo seria função da maior ou menor harmonia das razões entre as intensidades destes termos. Tal como as cordas da lira produzem acordes (os sons que estão de acordo), os princípios reguladores da natureza corresponderiam a regras quantitativas.

Os prosélitos do pitagorismo são inarredáveis e incessantes. Platão, no início, foi um deles.  Para resolver a ordem universal, buscou na razão áurea uma afinidade perfeita entre o todo e suas partes. Estabeleceu um padrão de beleza, mas não encontrou, nem pretendeu ter encontrado, a Alma do Mundo. O belo e o verdadeiro seriam da esfera da Idealidade.

Conhecedor dos pitagóricos, e, mais ainda de Platão, Aristóteles superou ou contornou o problema da relação entre o mundo e os números. Afirmou que o “justo meio”, a harmonização de tudo, pertence à razoabilidade, não à racionalidade. Com isto, pode avançar a evidência de que o racional e o razoável integram o campo lógico de diferente maneira. Que uma relação que seja válida em qualquer momento e circunstância não pode ser da ordem das matemáticas nem dos fatos sensíveis. Tem que ser da ordem exclusiva do mundo ficcional. 

A ilusão pitagórica foi a da idealidade pura. A réplica platônica foi a da mimese, do mundo sensível como cópia imperfeita do mundo das Ideias. A solução Aristotélica foi a realista. Mostrou, de uma vez por todas, que os objetos matemáticos são perfeitos e eternos, mas artificiais. Não se aplicam à Natureza, porque, seja a natureza do mundo físico, seja a natureza do mundo social, seja a natureza humana, seja qualquer natureza, ela é sempre incompleta, instável e condenada à finitude. 

A diligência dos novíssimos pitagóricos em esquecer Aristóteles e toda a filosofia, reduzindo a vida psicossocial aos dados e estatísticas, é um enigma para os antropólogos solucionarem. Salvo que, considerando os conhecimentos adquiridos nos últimos vinte e cinco séculos, o desatino numerológico talvez pudesse ser melhor cuidado pela psiquiatria.

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