ÉTICA: Para a inibição do desregramento republicida.

Ética.

Os suntuosos gastos dos potentados republicanos escondem apenas uma das faces da reinação dos poderes. A outra, é a opacidade que cerca as fontes e os usos da magnificência executiva, parlamentar e cortesã. 

A denúncia do desperdício em nada o diminui. Apenas reforça o engenho com que é encoberto. Mas não foi sempre assim. Ainda que absurdos, os gastos com tolices nos anciens regimes não eram dissimulados.

Imaginemos estar vivendo no início do século XVI, no reino da França. Seríamos súditos do Henri II, feito sucessor do irmão, François III, falecido em decorrência de uma constipação adquirida em uma partida de tênis. Como é possível ter o trânsito intestinal obstruído ao se praticar tênis, não sabemos. 

Seguiu-se à régia fatalidade, outra igualmente lúdica. Henri, irmão e herdeiro inesperado, terminou morto acidentalmente pelo capitão da sua Guarda Escocesa, Gabriel de Montgommery, quando, distraído em um jogo, lhe varou o olho direito com uma lança. 

Sucedeu aos malogrados irmãos a esposa de Henri, a plebeia Catarina de Médici, que passou a reinar de facto, embora não de juris. O matrimônio havia tido lugar quando Henri não passava de um delfim, e a noiva, uma feia adolescente de 14 anos, sobrinha do Papa Médici aquele, foi lhe metida goela abaixo. Pois, Catarina, delfina feita monarca, tinha se visto ameaçada de divórcio por ser estéril. Desesperada, arranjou-se para engravidar mediante a ingesta de litros de urina de jumenta acompanhados da imposição de esterco de vaca e pó de chifres de veados em sua “source de vie“. 

À diferença do que ocorre nos dias de hoje, o feito foi documentado, embora não tenha sido divulgado. Afinal, tratava-se da source particular da delfina. Mas não houve segredo quanto aos gastos da iniciativa. Nem mesmo foram levantadas dúvidas sobre a eficácia do tratamento ou o saber dos físicos que a assistiram. 

Os registros palacianos da época eram tão desassombrados, que deles consta até o soldo pago a um certo Antoine Andrault, padeiro. A par do salário, foram assentadas as despesas com o único e excelso encargo de M. le boulanger du château : a preparação de pães especiais, embebidos em leite, destinados aos dois cães de estimação de Madame la Reine, que gastou fortunas – igualmente registradas – para indenizar os plebeus que dita animália atacava durante seus passeios diários.

A exposição do luxo suntuário foi uma das molas que fez a turba levar os aristocratas à la lanterne. Infere-se a consideração de que não seria má ideia forçar ao desvelamento público os registros dos dispêndios íntimos daqueles que entre nós, supostamente, servem ao Povo.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Annales historiques de la Révolution française – https://journals.openedition.org/ahrf
Frieda, Léonie (2006). Catherine de Medici. London. Phoenix.
Pastoureau, Michel (2001). Les animaux célèbres. Paris. Arléa.

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