TRABALHO: Epicuro – Serenidade contra a opressão.

Trabalho.

Pathway in Monet's Garden at Giverny 1902 - Claude Monet Paintings

No décimo quarto dos seus sermões, o padre Antônio Vieira se dirige aos escravos de um engenho com estas palavras: “Eles mandam, e vós servis; eles dormem, e vós velais; eles descansam, e vós trabalhais; eles gozam o fruto de vossos trabalhos, e o que vós colheis deles é um trabalho sobre outro. Não há trabalhos mais doces que os das vossas oficinas; mas toda essa doçura para quem é? Sois como as abelhas, de quem disse o poeta (Virgílio): ‘Sic vos non vobis mellificatis apes”. 

O argumento é paradoxal. Vieira sabia disto, mas pregava segundo a doutrina da Igreja, que havia emprestado dos estoicos a ideia conformista do trabalho como caminho da serenidade. A reação não conformista tinha sido sufocada, ainda na Idade das Trevas, pela difamação sistemática dos epicureus. 

Explica-se. A disciplina do Jardim, que ensina que a satisfação não está em comer, mas em ter comido, deslocava o foco do processo para a realização. A propaganda fide, ao anular o epicurismo, conseguiu que a Cristandade deixasse de se perguntar sobre quanto do que fazemos na vida e no trabalho contribui para serenidade do espírito. 

Deste então, os que vivemos no Ocidente, dirigimos nossas interações sociais, digitais, econômicas, e, particularmente, nossos afazeres profissionais às distrações e ao status social. Quase nunca buscamos a tranquilidade anímica. Descuidamos da crítica do mundo em que vivemos, do esforço para atenuar a turbulência e a angustia, nossa e dos outros. Deixamos de construir uma Obra. A essência da vida é posta em plano secundário pelos grilões da ganância, da crendice ideológica, da labuta mecânica, da indiferença, e do vazio da pseudorrealização.

Alguns reagem com rebeldia. Desgastam-se sem resultados. Não se dão conta de que a violência é contraproducente. O servilismo, daquele que aceita não comer do mel que produz, não se soluciona mediante a revolta contra os poderosos e contra as instituições. O conformismo se resolve pela disciplina serena, dos que, na forma de Epicuro, não se perguntam sobre o que gostariam de experimentar ou ter, mas sobre o que estão experimentando e tendo. Assim na vida como no trabalho.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Vieira, Antônio. Sermão XIV na Bahia, à irmandade dos pretos de um Engenho em dia de São João Evangelista, 1633. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/fs000032pdf.pdf

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