PERPLEXIDADES: A dissolução transcultural.

Perplexidades.

Vladimir Kush

O século XXI já vai alto, e nós, que nele chegamos adultos, conhecemos pessoas que compartilhavam tradições, que dominavam, ao mesmo tempo, as línguas ocidentais modernas e idiomas como o ídiche, o bretão, o guarani.
Infelizmente, ao longo do século passado, as culturas minoritárias ou vencidas foram pasteurizadas, a ponto de não mais serem reconhecíveis.

Dos catalães aos maoris, os exemplos se multiplicam. Se, por exemplo, tomarmos a civilização asquenaze, esmagada pela shoah, esvanecida por Israel, encontraremos Marx, que ainda buscou inspiração na justiça social dos Profetas; Durkheim, que denunciou a anomia do desregramento social; Freud, que praticou a exegese talmúdica, que não é a do texto, mas a da palavra; Kafka, que reinventou a condenação divina; Einstein, que perseguiu a unidade bíblica do cosmos; Wittgenstein, que redescobriu que todos somos estrangeiros fora do nosso idioma íntimo, e muitos outros filósofos, músicos, literatos, artistas.

O que tinham em comum essas pessoas não era só o gênio. Era a biculturalidade. Marx e Wittgenstein abandonaram o judaísmo e os demais não eram religiosos. Tampouco, à exceção de Durkheim, conheciam bem a civilização dos asquenazim da Europa central e oriental. Mas os resquícios dos traços culturais são evidentes nos temas da justiça social, da moralidade do trabalho, da interpretação da psique, do terror de viver, da unificação das forças da natureza, e dos jogos de linguagem. Estes intelectuais ainda puderam combinar a tradição herdada com o espírito das suas respectivas épocas e lugares.

Até meados do último século, o cross-cultural enlargement representou imensa fonte de enriquecimento. No mundo em que vivemos, propende a sucumbir. A conservação de temáticas e interesses se dissolve rapidamente na transculturalidade da Internet. A circulação de informações e a homogeneização dos conceitos diluem e mesclam esferas, teorias, ideologias, crenças que se perdem na universalidade comunicacional.

O deplorável é que o esquecimento de sestros culturais não pode ser reparado. As expressões e saberes que se extinguem não podem ser restituídos ou compensados. Neste momento, parece ser inevitável que a web venha a nos condenar à sonolência da uniformidade monocórdica.

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