ÉTICA: A sansão e a recompensa

Ética.

Uma creche israelense tinha um problema: o número crescente de pais chegando atrasados para buscar os filhos. A situação era delicada. As crianças não poderiam ser deixadas sozinhas na escadaria externa.

A exortação para que os pais chegassem a tempo não teve o efeito desejado. Sem alternativa, a direção da creche instituiu uma taxa por atraso. Os pais teriam agora duas razões para chegar à tempo. Era sua obrigação, e, ao se atrasarem, pagariam a multa.

Mas o efeito não foi o esperado. Não só o número de pais atrasados aumentou, como aumentou também o tempo de atraso. Antes da imposição da multa, cerca de 25% dos pais chegava tarde. Quando foi introduzida, a percentagem de retardatários aumentou para aproximadamente 33%. E foi subindo até atingir cerca de 40% na décima sexta semana.

A explicação para o fenômeno vem da conduta imbuída na natureza humana. A creche havia precificado a transgressão. Do ponto de vista da ética substancial, se você pode pagar para chegar atrasado, a responsabilidade moral da pontualidade desaparece.

É o que se passa com os bônus de recompensa pelos incrementos nos lucros corporativos. Se a recompensa pelo esforço adicional é transformada em remuneração, você deixa de ter a responsabilidade pela execução de qualquer tarefa que não seja descrita no seu contrato. O envolvimento moral e psicológico com o trabalho e com a organização empregadora desaparece.

A multa, como o seu inverso, o prêmio, desmoralizam o que antes era uma conduta eticamente esperada. Não se trata mais de considerar uma ação certa ou errada, devida ou indevida, mas de ponderar o preço que se paga por ela. Quando a multa é aumentada, o atraso passa a ser um negócio. Paralelamente, o incentivo arrisca ser considerado um mal negócio. Melhor investir em outra coisa, em viver mais tranquilamente, por exemplo.

A crise dos bônus se atenuou não devido à regulação, mas porque os executivos mais capazes se deram conta que o sistema de incentivos os estava enriquecendo materialmente e empobrecendo vivencialmente. Alguns procuraram um estado de equilíbrio entre vida e trabalho. Outros fizeram a aposta da rapinagem. Ganhar o máximo no menor tempo possível e abandonar o campo (o emprego). Seja para uma vida melhor, seja para a prisão. Como tem ocorrido.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Barry Schwartz (2015). Why We Work. New York. Simon & Schuster/ TED

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