TRABALHO: O trabalho compulsivo e o repouso compulsório.

Trabalho.

O descanso semanal tem raízes bastardas. Diferentemente do dia, do mês e do ano, a semana é de origem cultural, não astronômica. É uma invenção hebraica destinada ao cumprimento de obrigações, não de interdições.  Como se lê no Êxodo 20:1-17, logo a seguir aos dez mandamentos, as proibições tanto de trabalhar quanto de obrigar o outro a trabalhar eram necessários para cumprir a Lei. Não eram uma lei em si. 

O hebreu tratava de obedecer a uma regra mosaica: “lembra-te do dia do shabbat, para o santificar”. O cristão, de cumprir a regra adaptada do mandamento de reservar um dia para o Senhor. O dominicus. O impedimento de produzir qualquer coisa, fosse dos judeus ortodoxos no shabat ou dos cristãos de estrita observância no dominicus, nasce da dedicação plena à comunhão social. Nada tinham a ver com descansar o corpo e o espírito. 

Para os hebreus, o repouso só veio a ser reivindicado depois do colapso do Segundo Templo e a volta à servidão. Para os cristãos, foi instituído apenas no século IV, por Constantino, primeiro imperador converso. 

Só tardiamente, nos anos 1800, conforme consta das últimas páginas de “Da Liberdade” de John Stuart Mill, que se secularizou o “costume saudável” do “dia do shabbat” isto é, do domingo. Para o liberalismo, o repouso teria o propósito declarado de interromper o fluxo contínuo do trabalho, como se faz com os campos cultivados e com os animais de tração, para que recuperem as forças. O centralismo econômico construiu outra justificativa para a mesma ideia. O repouso seria destinado ao mais adequado cumprimento do dever de gerar bens para todos, moto do paternalismo de Estado. 

Ambas as correntes político-econômicas seguem o mesmo argumento de fundo: se trabalhar é ir contra a resistência da Natureza, repousar é um requisito para trabalhar mais e melhor no restante da semana.

Hoje, independentemente da nossa convicção religiosa ou política, da nossa consciência e da nossa vontade, vivemos em uma sociedade esquizofrênica, em que a cessação da atividade laboral – o lazer (do latim licére, ser lícito) – é incentivado, desde que nunca se efetive psiquicamente. Trata-se de um ardil. Sentimos como insuficiente o que nos é vendido como um longo intervalo de descanso. Ao mesmo tempo, ao paramos de trabalhar nosso senso de pertencimento fica distorcido; a separação do trabalho nos angustia. 

O paradoxal é que quando repousamos, a inércia e a comunidade nos rebaixam intelectual e socialmente, e quando não repousamos, o desgaste do espírito e a degenerescência do corpo nos aniquilam mental e fisicamente.

UTILIZE E CITE A FONTE.
Manguel, Alberto (2004). Uma história da leitura. Tradução de Paulo Maia Soares. São Paulo. Companhia das Letras.
Mill, John Stuart (2010). Sobre a Liberdade.  Tradução, introdução e notas de Pedro Madeira, Lisboa, Edições70 
Pieper, Josef (1998). Leisure: the basis of culture. Trad. Gerald Malsbary. Indiana. St. Augustine Press. 
Santo Agostinho (2010). Confissões. Tradução: J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. Petrópolis. Editora: Vozes

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