A imprudência transracional de Bachelard.

Heurística

Eric Jarque (Dzyan). Nympheas

No reino do pensamento, a imprudência é um método.

A frase, do filosofo das ciências Gaston Bachelard (1884 – 1962), evoca que a abertura do espírito deve combinar devaneio e raciocínio lógico.

Muito depois de Bachelard, a ciência cognitiva e a neurociência demostraram que o ato heurístico requer a inspiração poética. Que é a fantasia, e não a lógica, que permite pensar oximoros, como o “fogo frio” para entender a queimadura da criogenia, e como o “amor violento”, para entender a morte assistida. Que é preciso combinar o devaneio com a observação, o imaginado com o vivenciado se se pretende alcançar os conceitos que Bachelard denominou de transracionais.

O cérebro é um detector de regularidades. Permite aos indivíduos compreenderem imediatamente o que suas experiências passadas predispõem a ver e a sentir. De tal sorte que faz parte do caráter analógico fundamental do espírito humano o pendor para reconciliar o presente com passado. Essa redução estabiliza estruturas, cujo equilíbrio é necessário rescindir para desvelar o oculto e encontrar o novo.

Bachelard, poeta da razão, vai sendo confirmado pelas ciências, que tardia e insipidamente constataram que a transracionalidade é uma quebra, não uma falha.

Além das obras sobre teoria da ciência, Bachelard escreveu livros como A água e os sonhos, onde mostra a relação entre a fantasia e o trabalho criativo. Aquele que não devaneia – disse, com razão poética e científica – é um escravo das necessidades. O que produz só tem valor material. Se e quando o tem.

 

Bachelard, Gaston (1972) Le Surrationalisme. In L’Engagement Rationaliste. Paris. PUF

 

Bachelard, Gaston (1972). Conhecimento comum e conhecimento científico. In, Tempo Brasileiro São Paulo, n. 28, p. 47-56, jan-mar 1972

 

Bachelard, Gaston (1988) A Água e os Sonhos: ensaio sobre a imaginação da matéria. Tradução de Antônio de Pádua Danesi. São Paulo. Martins Fontes

 

Thérèse Collins, Daniel Andler & Catherine Talon-Bauchy. (2018) La cognition: du neurone à la société. Paris. Gallimard.

 

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2020 – A imprudência transracional de Bachelard. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2020/08/19/a-imprudencia-transracional-de-bachelard

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