Para além do normativo e do empírico, o pluralismo.

Ética.

Igor Morski

Desde a segunda metade do século XX, a filosofia moral apresenta duas vertentes: a prescritiva e a derivada das situações concretas.

A ética prescritiva evoluiu para uma crítica conceitual. É o caso da fenomenologia e seus avatares, que abriga perspectivas que vão desde a de Ricœur, que propõe um minimalismo axiológico baseado na reciprocidade e na Regra de Ouro, até a de Levinas, que propõe uma relação intransitiva, na qual o sujeito é “refém” do “Outro”.

Assentada na realidade das situações concretas, a reflexão analítica, de origem anglo-saxã, faz uso das teorias normativas somente para as reformular. Critica filosoficamente, isto é, baseando-se na gnoseologia e na axiologia, as análises genealógicas (Nietzsche) das situações efetivas, e os impasses, como o do princípio de respeito à pessoa humana (Kant).

As divergências entre a convicção do justo como normatizável e do justo como mutável foram atenuadas pela inclusão da sensibilidade (G.E. Moore & emocionalistas), da solidariedade e do engajamento (Sartre) na discussão moral. As duas vias filosóficas chegaram mesmo a convergir pela influência, nos dois lados do Atlântico, de obras como as de Michel Foucault, quem trouxe à evidência que por detrás de um “progresso moral” é preciso ver a interiorização dos sentimentos de vergonha e de culpa que transformam os seres humanos em animais dóceis.

O normativo e o empírico se entrelaçaram. Mas, por impossibilidade lógica, não têm como se mesclarem. É certo que uma vertente se nutre da outra, e que ambas têm como meta a melhoria das condições de vida humana. No entanto, ao não dissolverem nem resolverem o problema do convívio na diferença, legam ao pluralismo ético o caminho que resta para ordenar a coexistência de pessoas que abraçam convicções morais incompatíveis entre si.

 

Leopoldo e Silva, Franklin. (2006) O Imperativo Ético de Sartre. In: Novaes, Adauto (Org.). O silêncio dos intelectuais. São Paulo: Companhia das Letras.
Levinas, Emmanuel. (1998). Éthique comme philosophie première. Paris. Éditions Payot & Rivages.
Lorezini, Daniele et alli (2013) Michel Foucault: éthique et vérité: 1980-1984. Paris. Vrin
Moore, George Edward (1999) Principia ethica. Trad. de Maria Manuela Rocheta Santos e. Isabel Pedro dos Santos. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.
Rawls, John (1997) Uma teoria da justiça. Tradução Almiro Pisetta e Lenita M. R. Esteves. São Paulo. Martins Fontes.
Ricœur, Paul. (1991). O si-mesmo como outro. Tradução de Luci Moreira Cesar. Campinas, Papirus.
Sartre, Jean-Paul (2009). O ser e o nada: Ensaio de ontologia fenomenológica. Petrópolis. Vozes.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2020 – A conciliação pluralista. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2020/08/26/para-alem-do-normativo-e-do-empirico-o-pluralismo

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