Como a falta de tempo pode levar a decisões erradas.

Notas.

Deu na BBC por Brigid Schulte.

GETTY IMAGE. Pressão por escassez de tempo ou dinheiro cria sensação de estar em um túnel: não sobra espaço mental para lidar com as coisas verdadeiramente importantes.

Veja se isto lhe soa familiar: você passa o dia de trabalho sob pressão para cumprir prazos, corre de uma reunião para a outra e distribui e-mails, sempre ocupado, resoluto e um pouco sem fôlego. E, no fim do dia, percebe, com decepção, que sequer começou aquele grande projeto que deveria estar tocando.

 

O resultado é que você acaba levando trabalho para casa, ou decide não levar, mas se sente culpado por isso.

De qualquer modo, é o trabalho invadindo o restante da sua vida, roubando-lhe tempo e espaço mental que deveria estar alocado para família, descanso ou lazer — e deixando-o exausto e um pouco ressentido. Você decide que amanhã será diferente. Mas, quando a manhã chega, você se depara com a mesma realidade do dia anterior.

Esse é um padrão que Antonia Violante tem visto em diversos ambientes corporativos que ela estuda nos Estados Unidos, para seu projeto voltado a busca do equilíbrio entre vidas profissional e pessoal.

Cientistas comportamentais e pesquisadores como ela chamam isso de “tunnelling”, ou, em tradução livre, “viver em um túnel”. Quando estamos estressados ou sob pressão, diz Violante, nossa atenção e cognição se estreitam, como se estivéssemos em um túnel.

Pode ser algo útil, que nos ajuda a hiper-focar na tarefa diante de nós.

Mas o “tunnelling” tem um lado negativo: quando o tempo é escasso e ficamos com o modo pânico ligado, pode ser que nossa capacidade de foco fique limitada apenas às tarefas imediatas diante de nós, geralmente de baixo valor, em vez da atenção em projetos maiores, estratégicos e de longo alcance que, por sinal, nos ajudariam a ficar fora do túnel. “Vemos que as pessoas acabam no ‘tunnelling’ pelas coisas erradas”, afirma Violante.

Por que os e-mails oferecem uma falsa recompensa

Os e-mails certamente estão nessa categoria. Para Violante (que trabalha na ideas42, uma ONG com escritórios nos EUA e na Índia que usa ciência comportamental para resolver problemas do mundo corporativo), checar os e-mails acaba se tornando um hábito viciante, uma vez que nosso cérebro naturalmente busca novidades — sendo assim, ele adora ser alertado para novas mensagens que chegam na caixa de entrada.

Além disso, humanos gostam de se sentir ocupados e produtivos. Combine escassez de tempo com a sensação de novidade e nosso vício em estar ocupado, e fica claro como acabamos focando o tempo e a atenção em o que quer que esteja diante de nós — o que, nos dias atuais, costuma ser e-mails.

Pessoas que gostam de estar ocupadas têm tanta aversão à inatividade que, segundo identificou um estudo, preferem dar a si mesmas choques elétricos do que ficar sem nada para fazer.

“É fácil ser sugado para a tentativa de estar sempre em dia com sua caixa de e-mails”, prossegue Violante. “Isso nos permite estar ocupados, o que causa uma sensação boa. Mas leva a uma falsa recompensa.” Por exemplo, confundir estar ocupado com ser produtivo.

Para sair desse tipo específico de túnel, Violante sugere tentar definir horários específicos para checar mensagens. Essa ideia, que Violante usa para si mesma, é baseada em uma pesquisa que identificou que fumantes autorizados a fumar em determinados intervalos tinham mais sucesso em parar de fumar do que com outros métodos. O motivo, resumiram os pesquisadores, é que determinar horários dava aos fumantes prática e autoconfiança em passar períodos sem fumar, além de quebrar associações habituais que os fumantes fazem com o cigarro.

Reação semelhante ocorre com o e-mail: um estudo de 2015 identificou que pessoas que checam seu e-mail em horários determinados se sentem mais felizes e menos estressados do que aqueles que checam constantemente — que é o caso de muitos de nós, que chegamos a passar cinco horas por dia lendo e respondendo mensagens.

Violante sugere também que equipes profissionais estabeleçam protocolos para quando se espera que uma mensagem seja respondida e limite-se a mandá-las apenas durante o expediente.

Para preservar espaço mental, ela recomenda uma mudança de mentalidade perante as mensagens. “Não se trata de ter literalmente zero e-mails na sua caixa de entrada, mas não ter ambiguidade quanto a o que está lá e ter um plano para o que for mais importante de se responder”, explica. Mas Violante reconhece que não é fácil. “Até mesmo cientistas comportamentais têm vício em e-mail.”

Como a escassez faz o espaço mental encolher

O conceito de escassez e “tunnelling” foram inicialmente descritos em pesquisas comportamentais relacionadas à pobreza.

Anandi Mani, professora de economia comportamental na Escola Blavatnik de Governo de Oxford, e seus colegas queriam entender o que levava pessoas pobres a fazer escolhas ruins com seu dinheiro, como tomar empréstimos a altas taxas de juros ou jogar na loteria.

Eles estudaram coletores de cana-de-açúcar na Índia e aplicaram-lhes exames cognitivos, tanto quando recebiam seu pagamento, logo depois da colheita, como meses mais tarde, quando o dinheiro estava escasso. Os pesquisadores descobriram que a escassez em si criava um fardo tão grande no espaço mental que o QI dos agricultores caía 13 pontos entre o período de bonança e o de pouco dinheiro.

“Existe um paralelo direto entre escassez de dinheiro e escassez de tempo”, diz Mani. “Com dinheiro (em mãos), fazemos o que é urgente — pagamos esta conta, tentamos fazer o orçamento dar certo, mesmo sabendo que é mais importante usar o tempo para ser um bom pai ou conversar com sua mãe. No trabalho, é a mesma coisa. Somos capturados por o que é que esteja na nossa frente, e não nos damos o espaço ou a introspecção para pensar no que pode ser mais pleno de significado.”

Para escapar desse túnel de escassez de tempo, Mani sugere primeiro ter consciência da situação. Se possível, você pode tentar aliviar sua carga de trabalho ou dividi-la ao longo do tempo, assim como, segundo pesquisas, transferências de renda em momentos críticos ajudaria famílias em situação de volatilidade a evitar a pobreza durante os períodos de escassez financeira.

Depois, combine com os demais criar e por em prática normas a respeito de intervalos a serem respeitados — no trabalho, durante a semana e no fim de semana.

“As velhas regras — não trabalhar no Sabbath (dia sagrado para os judeus) — de criar descanso forçado em nossas agendas têm valor real”, diz Mani. Ela mesma tem tentado dedicar 15 minutos diários de sua manhã à meditação. “Isso tem me tornado mais alerta durante o dia”, ela conta.

“Sinceramente, estudar isso tem me forçado a fazer muita introspecção.”

Planeje seu tempo com mais cuidado

Anuj Shah, professor de ciência comportamental na Universidade de Chicago, afirma que a escassez leva à criação de uma mentalidade própria.

Sua pesquisa, em que participantes jogavam jogos online e ficavam “ricos” ou “pobres”, teve resultados surpreendentes. Os que eram “pobres” ficavam, na verdade, mais cuidadosos com seus recursos.

Mas, como a escassez reduzia seu espaço mental, eles ficavam tão focados no jogo que não conseguiam elaborar estratégias para o futuro e faziam escolhas desastrosas, como tomar empréstimos a juros exorbitantes com altos custos posteriores.

Assim, para evitar o “tunnelling” por motivos errados ou negligenciar tarefas importantes que parecem menos urgentes no momento, mas trarão mais dividendos no longo prazo, Shah diz que as pessoas precisam reconhecer que tempo e espaço mental são recursos limitados.

Por exemplo, ele diz, quando olhamos nossa agenda para daqui a seis meses, ela provavelmente estará livre. Por isso, talvez fiquemos tentados a agendar muitos compromissos, que levará a escassez de tempo e “tunnelling” no futuro. “Mas sabemos que, em seis meses, aquela semana será muito parecida à semana atual, que é bastante ocupada”, pondera Shah. “Então precisamos pensar: ‘como vou encaixar isso nesta semana? Do que terei de abrir mão?’ Precisamos nos dar conta de que o tempo livre no futuro é uma ilusão.”

Ele próprio diz praticar isso.

Sendhil Mullainathan, colega de Shah, sugere pensar em nossas agendas menos como uma despensa onde podemos enfiar tudo, e mais como uma galeria de arte, onde decidimos o que é mais importante e como organizar isso, de forma a que tudo tenha seu lugar. Ele recomenda estabelecer sistemas de alerta que nos avisem quando começarmos a cair na armadilha da escassez.

“Quando já estamos com pouco tempo, já estamos em uma situação ruim”, diz Shah. “Mas se aprendermos a gerenciar o tempo com antecedência, podemos prevevir que isso ocorra no futuro.”

*Brigid Schulte é jornalista e autora de “Overwhelmed: Work, Love and Play when No One has the Time” (em tradução livre, “Sobrecarregado: trabalho, amor e lazer quando ninguém tem tempo”) e diretora do Laboratório de Vida Melhor no centro de estudos New America

Clique aqui para ler a matéria original.

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