O trabalho desnaturado.

Trabalho.

O objeto tecnológico é uma prótese. O martelo, a esferográfica e o celular intercedem entre o trabalhador e a coisa trabalhada. Sempre foi assim. Mas ao longo das últimas décadas esses intermediários foram despolarizando a relação entre o ser humano e o bem produzido.

A tecnologia é um conforto. Amplia nossas capacidades, mas disfarça as nossas deficiências. Procuramos ostentar as primeiras – o celular do ano, o óculos da moda, o software mais atualizado – e ocultar as segundas – a ponte dentária, a ortografia deficiente, a ignorância sobre o que se passa à nossa volta.

Na esfera do trabalho, alcançamos um momento em que se está permitindo aos instrumentos ditarem a forma e o propósito do que fazemos. É como se coubesse ao martelo prescrever o que será pregado, é como se fosse dado à esferográfica impor a escritura, ao aplicativo fixar as metas do projeto.

Estamos tão imersos no mundo digital que não notamos que as ferramentas vão tomando nosso lugar. Que à medida em que os artistas se convertem em reprodutores do gosto, que os engenheiros são substituídos por robôs e que os médicos cedem lugar aos técnicos em fisiopsicologia todos nos tornamos supérfluos.

Preferimos não ver que a tecnologia nos ultrapassa, dispensando o pouco que ainda restava de
humanidade na vida laboral.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2020 – O trabalho desnaturado. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar https://hermanoprojetos.com/2020/11/25/o-trabalho-desnaturado/

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