O ogro digital.

Perplexidades.

No tempo em que os nossos avós eram crianças, havia os desvãos dos bufês. Depois vieram os subterrâneos das camas altas, as cavernas dos armários embutidos, os refúgios nos ângulos dos sofás. Durante gerações, pudemos nos abrigar dos espectros que queriam levar nossas pequenas almas.

Os jovens de hoje não têm mais onde se esconder. O Big Brother orwelliano os vigia desde o nascimento; os esquadrinha e os antecipa. Aqueles que hoje chegam à idade adulta sujeitam-se à captação dos fatos, textos e vozes da vida íntima e comunitária. O ogro digital os espreita.

Juntos, os jovens se comunicam incessantemente, se aprisionam uns aos outros e se oferecem ao rastreio. Separados, são  engolidos pela solidão. Nas redes, os milhões de comentários, informações e fotos são capturadas, memorizadas, empacotadas e entregues à sanha da espionagem digital. Os dados e fatos pessoais, as conversações domésticas e profanas estão à mercê de máquinas que alimentam os sistemas de gestação dos desejos.

Toda sociedade sempre foi de vigilância. Antes eram os Faraós em busca de desleais que espionavam com o Olho de Horus. Depois foram autoridades como Meleto, Anitos e Lincon que calaram Sócrates. Em sucessão, vieram o monitoramento no Império Romano, tão assustador que inocentes se auto exilavam; a espionagem da Igreja, com a infâmia do confessionário; e a Sereníssima República de Veneza, cuja governança foi baseada na delação ao Conselho dos Quarenta, a Quarantia, receptadora das denúncias ditas ou escritas na Bocca di Leone.

Os exemplos se multiplicam e não cessam. O que há de novo na era digital é a amplitude, é o furto da identidade, a indução não só à disciplina política e ao consumo, mas ao conformismo e à determinação do que consumir. Da automação do judiciário para a automação jurisdicional, da digitalização das tarefas para o trabalho desnaturado a onipresença dos olhos e dos ouvidos wi-fi abriu passagens.

George Orwell, da vigilância continua; Gilles Deleuze, da sociedade de controle, Manuel Castells, das redes, e muitos outros descreveram com minúcias hediondas o grande ogro digital. Infelizmente, nenhum pode sugerir um avatar dos bufês, das camas, dos armários, dos sofás onde as novas gerações pudessem se defender da voracidade hipnótica da web. O bicho-papão pegou o futuro.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2020 – O ogro digital. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar https://hermanoprojetos.com/2020/12/30/o-ogro-digital/

 

REFERÊNCIAS:
Castells Manuel, Carlos Nelson Coutinho (Tradutor), e outros. (2009 )A sociedade em rede. Rio de Janeiro. Paz e Terra
Cohen, Martin. (2008). Philosophical Tales. London. Wiley-Blackwell 
Deleuze, Gilles (1990). Pourparlers. Paris. Les Éditions de Minuit.
Gibbon, Edward (2005) Declínio e queda do império romano. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo. Companhia de Bolso
Orwell, George (2009). 1984. Tradução de Heloisa Jahn e Alexandre Hubner. São Paulo. Cia das Letras.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s