Em Roma como os romanos.

Trabalho.

Em Roma, tantas vezes dada como exemplo do sistema escravagista, sempre houve trabalhadores livres. Vespasiano, conta Suetônio, recusou-se a usar uma máquina de levantar colunas na construção do Capitólio por que “não poderia alimentar os trabalhadores”. Sairia mais caro dar-lhes pão do que se economizaria com a máquina. Eram mal remunerados, mas não escravos.

Dão testemunho da diversificação do trabalho na Roma antiga figuras como os homo bona fide serviens e os servus quasi colonus. As leis chegavam a distinguir os trabalhadores independentes (locatio conductio operis) dos assalariados, inclusive assalariados pelo governo (locatio conductio operarum). Distinguia também os escravos com peculium, os escravos domésticos, os servos, os servos por dívida, e os clientes ligados a um domus.

A diferença entre trabalho e ocupação, estranha para nós, era óbvia para os romanos. O membro da elite não trabalhava. Ele se exercia. Ninguém se julgava rico quando a sua ocupação tinha que prover seu sustento. Cícero, por exemplo, era um fazendeiro dedicado, mas as suas ocupações eram o direito e a política. Havia uma moralidade para os ricos e bem nascidos (honestiores) e outra para os pobres (humiliores).

Nem a escravidão, nem o seu declínio têm a ver com a ética ou com as revoltas libertárias (a luta entre classes). Foi a flexibilidade da organização do trabalho que fez com que a o escravo perdesse relevância econômica. A expansão do Império, que outorgou cidadania às pessoas das tribos e nações conquistadas, e a distância das “fontes” fez com que a manutenção de cativos se tornasse muito cara. O emprego de trabalhadores livres ou libertos (plebs urbana), locais ou migrantes, passou a ser mais barato do que sustentar e gerir escravos.

Os romanos eram cruéis, sistemáticos e organizados, mas não eram rígidos. Na sua forma de ver, a tradição deveria ser continuamente recriada, não para restaurar a ordem anterior, mas para manter e estabilizar as “boas práticas”, isto é, os processos testados e aprovados. Mudando as circunstâncias e a economia, mudavam-se as leis, e não ao contrário, como se tenta fazer hoje em dia.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 – Em Roma como os romanos. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2021/01/13/em-roma-como-os-romanos/
REFERÊNCIAS:
Anequin, J. Claval-Lévêque. & Favory, F. (Ed.) (1978) Formas de exploração do trabalho e relações sociais na Antiguidade Clássica. Lisboa. Estampa.
Arendt, Hanna (2005). La crise de la culture (1972). Trad. Patrick Lévy. Paris. Gallimard – Folio.
Finley, Moses. I.(1973) The ancient economy. Berkley; University of California Press.
Guarinello, Norberto Luiz (2006). Escravos sem senhores: escravidão, trabalho e poder no mundo romano. In, Revista Brasileira de História. vol.26 no.52 São Paulo Dec. 2006.
Suetônio (2006) Vida dos doze césares. (Vespasiano, 18). Tradução de Pietro Nassetti. Editora Martin Claret.

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