O trabalho medido e o tempo perdido.

Trabalho.

A sensação de que o tempo passa é ilusória. Se o tempo passasse, haveria referências temporais externas ao próprio tempo, o que não pode ser.

A imagem do presente móvel é igualmente enganosa. Desde o nascimento até morte estamos presos ao agora. O que denominamos de passado são os presentes recordados. O que denominamos de futuro são as antecipações de presentes ainda não acontecidos.

Muitas culturas não compartilham nossas ilusões sobre o tempo. Os navajos norte-americanos denominam “presente” o intervalo lunar de 28 dias. Mesmo no interior da nossa cultura, o tempo é mentalmente variável. Para os jovens, os dias parecem curtos e os anos longos, para os velhos é o inverso: os dias parecem longos e os anos passam voando.

O tempo difere de pessoa para pessoa e varia conforme seu conteúdo. Há presentes longos: os do tédio, os da dor; e há presentes curtos: os do prazer, os do interesse. Há presentes que não existem para nós; situações como as do sono profundo, determinadas ações, como as artísticas e as intelectuais que absorvem o tempo à ponto de aboli-lo.

Perdemos muito tempo de vida trabalhando. As pessoas nas sociedades afluentes de hoje trabalham em média de 40 a 45 horas por semana. Nos países socioeconomicamente atrasados a média pode ultrapassar a 60hs. Isto é antinatural. Há evidências de que os coletores-caçadores trabalhavam no máximo 30hs por semana. Obtido o alimento e o abrigo, o trabalho cessava. Tinham tempo para cuidar do corpo e da alma.

O tempo de trabalho é para nós, seres dotados de consciência, inconstante. Oscila, avança e recua, se avoluma e se esvai a ponto de perdermos a fruição e o espetáculo da vida. O certo é que o tempo tem um significado particular para cada circunstância e para cada pessoa. Essa constatação faz da hora trabalhada a mais desumana das medidas.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 – O trabalho medido e o tempo perdido. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2021/02/03/o-trabalho-medido-e-o-tempo-perdido/
REFERÊNCIAS:
Lewis, Richard D. (2005). When cultures collide: Leading across cultures. Boston. Nicholas Brealey Publishing
Pinxten, Rike (1995). Comparing time and temporality in cultures. Cultural dynamics, 7 (2), p233-252.
Santo Agostinho (2010), Confissões. Tradução: J. Oliveira Santos e A. Ambrósio de Pina. Petrópolis. Editora Vozes.

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s