A privação da identidade.

Perplexidades.

O mal absoluto é a perda da identidade. Essa a conclusão a que chegou Alan Montefiore, do Balliol College de Oxford, ao estudar a vida dos sobreviventes da Shoah.

A aniquilação do meio em que se nasceu, bem como o padecimento ante a maldade alheia, bloqueiam as lembranças. Anulam a capacidade de narrar – aos outros e a si mesmo – os eventos da vida. A determinação de falar em língua alheia, de assumir os elementos de outras culturas, de desconhecer a própria história, impersonalizam.

Em proporção, os violentados pela demência, pelo afastamento da comunidade, pela demissão ou aposentadoria indesejada têm bloqueada ou destruída a narrativa das suas vidas. Ao desmoronar a relação com o mundo que os cerca, perdem a identidade, a capacidade de se auto representarem.

O asceta cartesiano, aquele que possui uma intuição imediata e não temporal do seu próprio estado e a plena consciência de si, é uma fantasia impossível de ser efetivada. A identidade é frágil, é incerta. Tem componentes ficcionais e deve ser incessantemente reedificada ante um meio exterior mutante.

Simondon escreveu que o ser humano tem duas faces. Uma neutra, não identificada, outra identitária e própria. O vitimado, o alijado, o estranho, o singular não pode expor a face íntima. Deve omitir a própria vida, sob pena de segregação pela mediocridade societária na qual aspira se inscrever.

Incompreensivelmente, alguns programam o divórcio de si. Procuram agir racionalmente, isto é, serem frios, neutros, indiferentes. Evitam considerar os outros como pessoas. Os enxergam como peças da engrenagem social. O preço que pagam é o do aniquilação do Eu. Desesperam da própria humanidade.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 – A privação da identidade. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar https://hermanoprojetos.com/2021/02/18/a-privacao-da-identidade/
REFERÊNCIAS:
Montefiore, Alan (2011) A Philosophical Retrospective: Facts, Values, and Jewish Identity. New York. Columbia University Press.
Simondon, Gilbert (2006). Individuation à la lumière des notions de forme et d’information. Grenoble. Éditions Jérôme Millon

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