Trabalho digital: o evanescente e o emergente.

Trabalho.

Os congressos, as reuniões formais e os festejos corporativos são resquícios das formas barrocas de interação, incitação e pompa. Nessas ocasiões, contam-se lendas edificantes e douram-se os ícones de uma continuidade que não pode ser aferida, seja a da deidade (o Fundador), seja a do progresso (as Novas Instalações), seja a da aura (a Organização).

Ainda que antropólogos e historiadores concordem que é da natureza das tradições serem adaptadas quando perdem utilidade, ninguém até hoje conseguiu estabelecer a mecânica dessa sublimação. Sabemos apenas que as falsas recordações têm origem em um ajustamento ritualístico: ao elemento posto, real ou imaginário, são adicionados outros; o inconveniente, o feio, o imoral, o estranho são descartados.

É o que se passa com as tradições do mundo do trabalho. O direito específico, a carreira, o treinamento, etc., são invenções recentes. O vínculo empregatício de hoje pouco ou nada tem a ver com o do momento, anterior à Revolução Industrial, em que apareceram os primeiros empregados. O home-office é um arremedo da tradição dos profissionais liberais do século XIX, que tinham seus consultórios, bancas e escritórios em casa e que exerciam seus offices (ofícios) no home (lar). É do tempo em que havia ofícios ( opus ficium), literalmente a produção da obra integral por uma única pessoa, e que os lares (läris), os deuses tutelares, protegiam as casas.

As redes, robôs e aplicativos a que já nos habituamos, também não durarão. Mas, à diferença das tradições reformadas, esses instrumentos se autorreproduzem e se expandem em velocidade desumana. São adaptáveis ao andamento da economia. Uma adaptabilidade que está produzindo dois efeitos: a rejeição acelerada de práticas tão recentes como os mails, os desks e os MSNs, e a invenção de novos costumes, desconectados da biografia profissional de grande parte dos seres humanos que vivem e trabalham.

Na era digital as tradições laborais evanescente e emergente se sobrepõem. Coabitamos estruturas em que se entrelaçam dinâmicas senis e larvais. Modos de trabalhar ambivalentes, práticas que já caducam, técnicas que acabam de desabrochar.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.

 

CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 – Trabalho digital: o evanescente e o emergente. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2021/03/24/trabalho-digital-o-evanescente-e-o-emergente
REFERÊNCIAS:

 

Hobsbawm, Eric & Terence Ranger, eds. (2000). The Invention of Tradition. Cambridge, UK. Cambridge University Press.

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