Burroughs, Foucault e a sociedade de controle.

Trabalho.

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Michel Foucault descreveu dois tipos de sociedade. Uma, ele designou de “sociedade da soberania”; a outra, de “sociedade disciplinar”.

O século XIX teria assistido à passagem da sociedade de soberania, que se define pelo poder repressivo; para a sociedade disciplinar, que se caracteriza pela constituição de meios de enclausuramento: hospícios, prisões, oficinas, hospitais, escolas, escritórios.

As análises de Foucault vertem sobre essas entidades. Mas ele, que morreu moço, já antevia que entraríamos em um outro tipo de consórcio humano. Segundo relata Deleuze, Burroughs, a quem Foucault admirava, havia denominado esse terceiro tipo de “sociedade de controle”.

Nas sociedades de controle, as instituições disciplinares ainda sobrevivem, como sobrevivem os detritos da sociedade de soberania, mas já não há necessidade de enclausuramento. Os hospícios praticamente deixaram de existir; as prisões estão sendo substituídas por regimes semiabertos, por tornozeleiras, etc.; as linhas de produção estão desertas, robotizadas e controladas à distância; os cuidados médicos estão sendo feitos a domicilio ou em unidades fragmentadas; o ensino está se convertendo do presencial para o online.

Nas sociedade de controle, somos livres para irmos e virmos, para dirigirmos, para pensarmos e manifestarmos, mas nossos movimentos e nossos atos são esquadrinhados; todas as manifestações são rastreadas; toda a comunicação é acompanhada; toda reflexão notificada.

O movimento se estende ao trabalho. Recebemos, como trabalhadores, o mesmo tipo de atenção à distância que recebem os enfermos, os loucos, os criminosos, os estudantes. Nos emancipamos do jugo, seja o do látego, seja o do olhar preventivo. Aos poucos, nos desencaixotamos das linhas de produção e das baias. Mas essas abstenções requerem dos poderes dominantes a instauração explosiva de formas sutis de vigilância. Redes que formatam a sociedade na qual, como Burroughs escreveu, tudo é permitido porque nada é verdadeiro.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 – Burroughs, Foucault e a sociedade de controle. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2021/04/14/burroughs-foucault-e-a-sociedade-de-controle/
REFERÊNCIAS:
Deleuze, Gilles (1990). Post-scriptum sur les sociétés de contrôle. In L’autre journal, n° l, mai 1990. https://infokiosques.net/imprimersans2.php3?id_article=214
Foucault, Michel (1979). Microfísica do poder. Rio de Janeiro. Graal.
Foucault, Michel (2001). História da sexualidade; Rio de Janeiro. Graal.
Grauerholz, James, Silverberg, Ira, Douglas, Ann (eds.) (2000). Word Virus: The William S. Burroughs Reader. New York: Grove Press. 
Ottaviani, Didier (s/d). Foucault – Deleuze : de la discipline au contrôle. http://books.openedition.org/enseditions/1217

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