Heurística: a intuição contra o estabelecido.

Epistemologia.

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Os Gregos acreditavam que o olhar produzia um “raio de fogo”, uma luz que captava as imagens. A convicção era tão arraigada, que Aristóteles, sábio e médico, “viu” e descreveu como o olhar das mulheres menstruadas deixava uma névoa cor de sangue nos espelhos. Uma nódoa que enfeitiçava qualquer pessoa que a mirasse.

Mas nem tudo era superstição ou ignorância. Os Antigos também notaram que a visão difere de indivíduo para indivíduo. Daí que duas pessoas olhando para a mesma coisa não enxergassem cenas idênticas. A prova é a necessidade milenar de confirmação: você está vendo o que eu estou vendo?

Na medida que se opunha à métrica e ao argumento, o olhar tinha um sentido e um campo de conhecimento pessoal e fluido, que hoje denominamos de intuição. A psicologia e a antropologia confirmam que o raio de fogo pode não existir, mas a intuição, de fato, existe. Antecede e exclui o conceito (Bergson). Pressentimos que alguém nos olha. Adivinhamos o ponto de regulagem de um mecanismo, bem como ajuizamos a índole de um interlocutor.

Mas a intuição é incerta. Podemos deduzir padrões que não existem e negligenciar os existentes, corrompida que é nossa mente pelas vivências pessoais e pela cultura em que estamos imersos.

Duvidosa que seja, a intuição é inestimável porque nos faz entender sem que saibamos como. Daí a aspiração dos pensadores, tanto antigos como contemporâneos: desenvolver a capacidade de ver o que ninguém viu, ampliar a capacidade de intuir.

Um sonho até hoje frustrado. Somente se alcançou consenso sobre dois pontos: 1) a intuição tem um modo negativo: nega o evidente e a certeza, e 2) a intuição tem um modo positivo: gera uma luz que permite ver para além do que seria de esperar. Como queriam os Gregos.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 – A heurística: Para além da opinião. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2021/04/21/heuristica-a-intuicao-contra-o-estabelecido/
REFERÊNCIAS:
Aristóteles (1998). Acerca de la generación y la corrupción. Tratados breves de historia natural. Traduccion de Ernesto la Croce y A. Bernabé Pajares. Madrid: Editorial Gredos.
Bergson, Henri (2011) Essai sur les données immédiates de la conscience. Paris. PUF.
Bucci, Eugênio (2010) Um preâmbulo: o ‘raio visual’ ou as memórias da infância. In Novaes, Adauto (org.) (2010) Mutações – a experiência do pensamento. São Paulo. Edições SESC.
Merleau-Ponty, M. (1976) O olho e o espírito. In Maurice Merleau-Ponty, Textos escolhidos. Tradução de Gerardo Dantas Barreto. São Paulo. Editora Abril.

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