Difícil ser funcionário.

Almanaque.

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Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos
Pedindo conselho.


Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas,
E outros não-fazeres.


É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.


Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tão pouco essas palavras —
Funcionárias, sem amor.


Carlos, há uma máquina
Que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.


E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulos para todos
Os tamanhos de meu corpo.


Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança


Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu…


Carlos, dessa náusea
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.


(João Cabral de Melo Neto)


(“Cadernos de Literatura Brasileira”, nº. 01, publicado pelo Instituto Moreira Salles em Março de 1996, p.60)

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