Nietzsche – a crendice da origem e a ilusão binária.

Ética.

origem imoralSchopenhauer denunciou os mitos de origem. Mas foi Nietzsche, seu discípulo e crítico, quem, ao mostrar o manancial bastardo dos valores e dos sentimentos morais, fez esmaecer na filosofia o folclore da proveniência.

Ainda assim, não são poucos os que seguem acreditando que o exame da etiologia do capitalismo deve informar a estratégia para eliminação das misérias da economia; que a notícia da fonte das neuroses teria o dom de recuperar a sensatez; que a inteligência da origem da evolução biológica nos reintegraria como seres da natureza.

Outra denúncia mal digerida de Nietzsche foi ao modo de pensar platônico, que propõe um Único Máximo como regente dos demais valores, conformando um dualismo férreo: o bem e o mal, o belo e o feio, o mundo súpero e o ínfero, etc.

Vemos hoje que tinha razão em ambos juízos. Ao caducarem, os pressupostos explicativos da seleção individual dos mais aptos, da luta de classes, do utilitarismo e da neurose de fonte singular levaram de roldão a ordem cósmica cujos resíduos sobrevivem nas dicotomias: natureza x artifício, capitalismo x socialismo, esquerda x direita e, notadamente, moral x imoral.

No campo da ética, a origem mítica e a irrealidade binária, aprofundadas pelo cristianismo, “esse platonismo para as massas”, segundo Nietzsche, renegam a existência efetiva. Eludem os fatos de que a vida do consórcio humano é múltipla e conflituosa e que os juízos de valor repousam sobre motivações de ordem prática, muitas delas ilícitas.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 – Nietzsche – a crendice da origem e a ilusão binária. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2021/06/23/nietzsche-a-crendice-da-origem-e-a-ilusao-binaria/
REFERÊNCIAS:
Nietzsche, Friedrich (1981). Assim falou Zaratustra; Tradução de Mario da Silva; Rio de Janeiro; Civilização Brasileira.
Nietzsche, Friedrich (2004). Aurora; Tradução de Paulo César de Souza; São Paulo; Companhia das Letras. [§103]
Nietzsche, Friedrich (2005). Humano, demasiado humano; Tradução e notas Paulo César de Souza; São Paulo; Companhia das Letras. [I, § 19]
Nietzsche, Friedrich (2012). A gaia ciência; Tradução de Paulo César de Souza; São Paulo; Companhia das Letras. [§ 357]

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