Japão é desafiado a reduzir número de mortes ligadas ao excesso de trabalho.

Nota.

Deu na Folha por Carlos Petrocilo

Sede dos Jogos Olímpicos tem histórico ruim e tenta diminuir os índices negativos.

depositphotos_209424600-stock-photo-tired-stressed-young-asian-business“Quando eu crescer, quero ser doutor engenheiro e fazer uma máquina do tempo como a que aparece no mangá Doraemon. Vou com a máquina do tempo para um dia antes de que o papai morreu. Daí digo a ele: ‘Não vá ao trabalho’.”

O autor da frase é uma criança de seis anos, cujo pai, um funcionário do governo local em Hashimoto, província de Wakayama, cometeu suicídio aos 46 anos.

O texto está estampado em um portal de uma associação que reúne familiares de vítimas por excesso de trabalho no Japão e alerta sobre o “karoshi”, expressão que pode ser traduzida como “morrer de tanto trabalhar”. O homem, que se matou em março de 2000, cumpria expediente diário de quase 16 horas.

O governo japonês passou a divulgar estatísticas dos casos em 1987. Era uma época em que o país, hoje sede dos Jogos Olímpicos, experimentava um boom econômico e ameaçava tomar o posto dos Estados Unidos de maior economia mundial.

Trabalhadores fazem exercício na empresa Tokyu Construction – Charly Triballeau – 18.jun.21/AFP

Em 2020, 148 pessoas morreram em decorrência de acidentes de trabalho ocasionados por doenças cerebrais, cardíacas e mentais, segundo o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do Japão. O problema persiste, mas o número é o menor número registrado anualmente ao longo da década passada, que contabilizou 1.869 casos no total.

Os números vêm sofrendo uma ligeira redução desde 2016, quando foram computados 191 óbitos. Entre eles, o de uma funcionária da Dentsu que, aos 24, pulou da janela do prédio durante a noite de Natal de 2015.

A família acusou a empresa, grande agência de publicidade, de obrigar a jovem a registrar menos horas do que, de fato, trabalhava. Em sua conta no Twitter, a funcionária detalhou os dias nos quais a sua rotina foi de até 20 horas.

Tadashi Ishii, presidente da Dentsu, renunciou ao cargo, e a empresa admitiu que quase cem profissionais faziam cerca de 80 horas extras.

O Ministério do Trabalho anunciou, então, um pacote de medidas para evitar novos casos, com providências que incluem o aumento da fiscalização, com visitas sem aviso prévio ao ambiente de trabalho, e a divulgação do nome da companhia que obrigou o colaborador a cumprir mais de 80 horas extras.

A recompensa financeira para horas extras não é unanimidade no Japão. Em algumas corporações, elas são pontuadas como voluntárias. Há também casos de colaboradores que ganham por hora trabalhada, o que estimula extensas jornadas.

O governo entende que uma carga de 80 horas extras seja fator de risco para o “karoshi”. Mas o funcionário pode solicitar uma isenção, apontando motivos especiais, e realizar cem horas a mais.

Para Makoto Iwahashi, da organização Posse, que defende os direitos trabalhistas de estrangeiros e refugiados no Japão, o governo falha em não responsabilizar as empresas criminalmente. Segundo ele, a multa pelo excesso na jornada é pouco.

“O governo estabeleceu o limite de horas, mas não existe uma lei que criminalize o karoshi”, diz Iwahashi à Folha. “A empresa pode ser processada pela família da vítima, mas não responderá criminalmente. Ela pode ter de pagar ao governo uma multa de US$ 5 mil dólares (R$ 26 mil) por violação ao limite de horas, mas não por causa de uma morte.”

Os riscos ligados às longas jornadas de trabalho têm se tornado uma preocupação mundial. A OMS (Organização Mundial de Saúde) e a (OIT) Organização Internacional de Trabalho publicaram em maio deste ano um estudo que aponta que o excesso contribuiu para 745 mil mortes por acidente vascular cerebral (398 mil) e doença isquêmica do coração (347 mil) em 2016.

As vítimas se submeteram a rotinas de ao menos 55 horas semanais de trabalho. E o estudo concluiu que atingir esse número aumenta os riscos de acidente vascular em 35% e os de doença cardíaca isquêmica em 17% – na comparação com quem cumpre uma carga de 40 horas semanais.

“É hora de todos nós, governos, empregadores e funcionários, acordarmos para o fato de que longas horas de trabalho podem levar à morte prematura”, resume a médica Maria Neira, da OMS.

Clique aqui para ler a matéria original na íntegra.

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