Derrida – O rastro e o resto.

Epistemologia.

andrea-ucini-2

A desconstrução não agita a água cristalina para turvá-la. Limita-se a constatar que a água, que parecia límpida, está cheia de impurezas, de restos, de rastros.

Ao desconstruir, averiguamos as fraturas e incongruências dos conceitos sem os tocar. Interessam-nos o lapso, o hiato, o indício que exponha a fragilidade dos significados. Buscamos o resíduo das intenções.

Derrida denominou “gramatologia” a ciência do rastro (rastre). Considerou que, ao seguirmos as marcas do texto, somos assombrados, (hanté) pela memória, pelos reflexos obsessivos do passado. Também somos assediados pela presentificação do futuro, pelo imaginário dos presságios.

Ao investigar, sempre nos deparamos com escórias, seja da ordenação [arquivo x registro], da lembrança [vestígio x relíquia], do texto, [inscrição x assentamento], dos dados [inventário x classificação], das perspectivas [futuro x porvir]

O resto (reste) é o que fica fora, o que se perde dessas supostas totalidades. Elementos que não se articulam, que não podem ser devolvidos ao todo e que denunciam incompletudes do estabelecido. O resto impede a síntese, o fecho dialético, o encerramento exato da significação.

Por mais que nos esforcemos para fixar as noções em conceitos e os conceitos em proposições explicativas, sobra algo que não se ajusta. Uma névoa não entendida e não explicável de obscuridades, de insuficiências. Por isso, Derrida abandonou a pretensão do conceito-signo, do acesso às coisas mesmas, em favor do conceito-rastro, do esquadrinhamento do apagado pelo tempo, pelas convenções, pelos espaços, pelas certezas.

A ideia-força que anima o processo investigativo da desconstrução é a de que todo esclarecimento traz em si novos vazios. Percebidos ou não.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 – Derrida – O rastro e o resto. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2021/08/25/derrida-o-rastro-e-o-resto/
REFERÊNCIAS:
Derrida, Jacques (1973) Gramatologia. Tradução de Miriam Chnaiderman e Renato Janine Ribeiro. São Paulo. Perspectiva

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