Fontes da filosofia moral: Husserl – a razão enquanto sentimento.

Ética.

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Phthonos, a inveja, é um dos dois sentimentos que Aristóteles evoca como vetores da indignação (nêmesis). O outro é a epikhairekakia, alegria-com-o-mal-alheio, o riso quando vemos uma pessoa cair da cadeira, por exemplo.

Muito se tem dito sobre a inveja, um dos sete pecados capitais. Muito se tem calado sobre o prazer com o infortúnio dos outros. No entanto, esse estado afetivo não nos é desconhecido. O nosso “bem feito!” e o alemão Schadenfreud, o expressam de diferentes ângulos.

As advertências contra a phthonos e a epikhairekakia chegaram ao século XX sem que surtissem qualquer efeito prático. No plano teórico, foi somente Husserl, ao detalhar a intersubjetividade, quem mostrou a desrazão moral dos sentimentos negativos.

O argumento de Husserl é o de que percebemos os outros primeiro como intuição direta de corporeidade física. Depois, intencionalmente, transpomos no nosso imaginário a sua experiência psíquica. Essa “intersubjetivização” gera a normativa de que o semelhante não é qualquer-um, mas um análogo de mim mesmo, um ente que apreendo empaticamente. Origina-se aí a lógica do preceito moral do deslocamento das posições. De sentirmos como se fossemos o outro, de tomarmos o outro como se fosse nós.

Segundo a ética fenomenológica de Husserl, o ser humano sensato não adverte sobre a razão de todos, como queria Aristóteles; não legisla sobre a alteridade, como queria Kant; não se reconhece na alteridade, como queria Hegel. Apenas se indigna quando o outro sofre ou quando deixa de ser aceito tal como é.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 – Fontes da filosofia moral: Husserl – a razão enquanto sentimento. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2021/09/01/fontes-da-filosofia-moral-husserl-a-razao-enquanto-sentimento/

 

REFERÊNCIAS:
Aristóteles (1987). Ética a Nicômaco; São Paulo; Nova Cultural.
Hegel, Georg Wilhelm Friedrich (1992). Fenomenologia do espírito. Tradução de Paulo Menezes. Petrópolis. Vozes
Husserl, Edmund (2001). Meditações cartesianas. [5ª meditação] Trad. Frank de Oliveira. São Paulo: Madras, 2001
Kant, Immanuel (2009). Fundamentação da metafísica dos costumes (1786). Tradução nova com introdução e notas por Guido Antônio de Almeida. São Paulo. Discurso Editorial e Barcarolla.

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