Trabalho e secularidade.

Trabalho.

Man is the Mouth of the Lord – Paul Klee.

O trigésimo terceiro versículo do capítulo 15 da Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios é uma citação: “Não vos enganeis, as más conversas estragam os bons costumes”.

O verso é tomado de uma peça de Menandro sobre a cortesã Tais.

A ideia de que aquele que mais fez para transformar uma seita apocalíptica judaica em uma religião de domínio mundial gostasse de comédias libertinas faz inquirir o quanto dos costumes arcaicos resistiram à secularização do Ocidente.

Há uma diferença entre secularismo e secularidade. Boaventura Santos anotou que o primeiro corresponde à separação entre instituições governamentais e instituições religiosas. Circunscreve a religião ao espaço privado. Já a secularidade presume o consentimento das expressões religiosas no espaço público enquanto afirmação da própria liberdade. É a garantia de os cidadãos professarem sua crença sem serem incomodados pelo Estado e pelos demais.

Max Weber chamou a atenção para que as organizações contemporâneas foram gestadas em um mundo secularizado. É fato. Mas o secularismo e a secularidade engendraram efeitos perversos. Despertaram idolatrias. A do dinheiro e a do corpo não são as únicas. O personalismo e os grupelhos ideológicos aí estão para de-secularizarem suas devoções e crendices. Está aí o trabalho dependente para restaurar as regras paulinas: o bloqueio da interpessoalidade, a interdição do companheirismo, a dissimulação.

Ignoramos a forma de confrontar os modernos avatares dos bezerros de ouro. Não sabemos, ou preferimos não saber, como secularizar as relações capital-trabalho e trabalho-trabalho. Os gestores, apegados aos ídolos do luxo e do poder, empurram o trabalhador à busca de refúgio para o corporativismo ordinário e para a religiosidade primária. Seria bom que uns e outros se emancipassem. Mas isso não acontecerá, e se acontecer, não haverá lugar para eles na economia que emerge.

 

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
 
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 – Trabalho e secularidade. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2021/09/29/trabalho-e-secularidade/
 
 
REFERÊNCIAS:
 
Cherques, Hermano Roberto Thiry (2009). Weber: o processo de racionalização e o desencantamento do trabalho nas organizações contemporâneas. Revista de Administração Pública (Impresso), v. 43, p. 897-918
Kelly, Stuart; La biblioteca de los libros perdidos; Traducción de Miguel Candel y Marra Pino Moreno; 2007; Barcelona Ediciones Paidós; 2007
Santos, Boaventura de Sousa (2013), Se Deus fosse um activista dos direitos humanos [Texto integral]. Publicado em Revista Crítica de Ciências Sociais, 103 | 2014
São Paulo. Bíblia Sagrada. Coríntios I. 15:33

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