A singularidade do plural.

Ética.

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Músicos – Fabiano Millani

Desde a Antiguidade, procura-se erigir um sistema autocorrigível de formação de consensos sobre os juízos éticos. Dois pensadores contemporâneos foram os últimos a falharem na tentativa: Habermas e Rawls.

Habermas propôs uma teoria do agir comunicativo que levasse à conciliação dos juízos nas comunidades culturais. Falhou ao idealizar os procedimentos de consonância das disputas em que cada um pudesse dar as razões pelas quais reconhece uma prescrição ou uma interdição comum.

Rawls propôs um amplo acordo sobre os princípios de uma democracia moral. Não uma teoria, mas as condições de sua aceitabilidade. Falhou ao eludir o procedimento de como pôr em prática as cláusulas de princípios construídos a partir de abstrações.

Ambos os malogros se devem à complexa ilogicidade da conduta humana. O sentido comum das coletividades é sempre efêmero e múltiplo. Nem a estabilidade definitiva das instituições sociais, nem a garantia plena da convivência pacífica podem ser alcançadas por consenso porque o consensos são erráticos e não admitem gradações.

As falhas na efetuação de teorias fundadas em conclaves imaginários evidencia que o pluralismo ético, no sentido que Leibniz dá ao termo “plural”: o da co-presença de uma quantidade heterogênea de convicções éticas, é o caminho para a harmonia generalizada. Ao abraçarmos o multiculturalismo moral, abrimos mão de concordarmos todos, mas não da concórdia em si. Concordamos em discordar para coexistirmos pacificamente.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 – A singularidade do plural. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2021/10/20/a-singularidade-do-plural/

 

REFERÊNCIAS:
Habermas, Jurgen (2019), A ética da discussão e a questão da verdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo. Martins Fontes.
Rawls, John (2016). Uma teoria da justiça. Tradução de Jussara Simões. São Paulo. Martins Fontes.
Leibniz, Gottfried Wilhelm. (1980). Novos Ensaios. Tradução: Luiz João Baraúna. São Paulo. Abril Cultural. [IV, XXI §4]

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