Caros Colegas.

Trabalho.

_109791777_bare-arsedOh amigos, não há amigos. É licito supor que Aristóteles nunca tenha pronunciado o célebre adágio. A imputação é tardia. Encontra-se nas “Vidas” de Laercio,  escritas em princípios do século III. A fórmula deixa dúvidas. Abre ao menos três possibilidades: uma falha de lógica, um erro de tradução e uma elipse entre tipos de amizades.

A deficiência do silogismo binário não é descartável. No entanto, uma vez que Aristóteles jamais apresente esse tipo de equívoco e que algo similar não conste dos seus textos, parece inverosímil.

Um erro de tradução pode se dever a proximidade com outro provérbio antigo: “O que tem muitos amigos, não tem amigos”. Essa figura é mais próxima de Aristóteles do que uma suposta ironia ou paradoxo. Assim interpreta Agamben. Mas há que se considerar que Montaigne, Nietzsche e Derrida, que conheciam o grego clássico, tomaram a tradução como boa.

Por fim, o mais provável é a referência à antinomia entre a amizade perfeita e a amizade imperfeita. O tema é recorrente em Aristóteles, para quem a amizade perfeita é integral e desinteressada, e a amizade imperfeita é aquela de que participa um elemento externo à relação. Elementos externos são o prazer, como o de integrar a torcida de um mesmo clube, e a utilidade, como o estar empregado na mesma organização. Cessando os prazeres ou as utilidades, cessa a motivação externa e a afeição esvanece.

Perfeita ou imperfeita, duas das mais importantes características do conceito da amizade em Aristóteles – semelhança e reciprocidade – não se sustentam na vida contemporânea. Somos, psíquica e socialmente, muito distantes dos gregos da época clássica. É comum nos considerarmos amigos de pessoas diferentes de nós em personalidade e em posição social. Também ocorre de nos considerarmos amigos de pessoas que não nos querem bem, e vice-versa.

Nas corporações é frequente tomar como amizade o que é simples convívio. Onde o que existe, de fato, é o coleguismo, uma relação em que não há semelhança, mas assimetria, em que não há reciprocidade, mas economia.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 -Caros Colegas. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2021/10/27/caros-colegas/
REFERÊNCIAS:
Agamben, Giorgio (2014). Qu’est-ce qu’un dispositif? Trad. Martin Rueff. Paris. Éditions Payot et Rivages.
Laercio, Diogenes (2015) Delphi Complete Works of Diogenes Laertius (Illustrated) (Delphi Ancient Classics Book 47) (English Edition) eBook Kindle

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