O Deus morto.

Perplexidades.

deusmorto

Dentre as teses de justificação do Criador ante o nonsense universal destacam-se a do Suicida, a do Assassinado e a do Enfadado.

A tese do Suicida, de Philipp Mainländer (1841-1876), é de que somos estilhaços de um Deus que no princípio dos tempos se autodestruiu, ávido de não-ser. A evolução histórica é a agonia desses fragmentos. Vivemos nos dejetos do suicídio de Deus, da sua extinção paulatina. Esse ato derradeiro explicaria as incongruências do Universo, do qual a nossa imperfeição é parte.

A tese do Assassinado consta da Gaia Ciência, onde Nietzsche escreveu que o louco que chega ao mercado com uma lamparina acesa em plena luz do dia e grita que Deus está morto não anuncia só a Sua morte, mas, também, que fomos nós que O matamos. Essa proposição não se refere à divindade específica das religiões monoteístas, mas à morte da transcendência. Toda entidade superior à vida teria sido liquidada por falta absoluta de sentido. Salvo que, mesmo Deus estando morto, vivemos à Sua sombra.

A tese do Enfadado, também de Nietzsche, figura no capitulo dos apóstatas de Assim falou Zaratustra. O argumento é de que os deuses, ao se inteirarem de que um dentre eles, vítima de um fastio extremo, se havia proclamado único, morreram de rir. Literalmente. O Deus sobrante veio e criou o mundo. Asfixiado pelo tédio, o Criador teria sido negligente. Daí os disparates do Universo.

Não há que se confiar muito nessas soluções. Mainländer padecia tanto com o sofrimento da humanidade que se enforcou aos 34 anos. Nietzsche foi uma mente torturada. Nos últimos escritos, antes de sucumbir à demência, estava convencido de que Deus, afinal, não estava morto. Apenas havia mudado de denominação. Passara a se chamar Friedrich Nietzsche.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 O – Deus morto. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2021/11/03/o-deus-morto/
 
 
REFERÊNCIAS:
 
Cruz, Oscar Fernando Burgos (2019) Philipp Mainländer. Actualidad de su pensamiento. Mexico. Universidad Autónoma de Guerrero. eBook Kindle
Derrida, Jacques (1986). Les antinomies de la discipline philosophique. Paris. Osiris.
Nietzsche, Friedrich (1981). Assim falou Zaratustra. Tradução de Mario da Silva. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira.
Nietzsche, Friedrich (2012). A gaia ciência. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo. Companhia das Letras.

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