Para além do sonho de Marx.

Trabalho.

chainsKarl Marx ficaria triste se soubesse que, passado século e meio da Primeira Internacional, a “miséria do trabalho assalariado”1 não se atenuou. No isolamento digital, a miséria foi transposta às modalidades não-assalariadas, que continuam “mutilando o trabalhador num fragmento de ser humano”2. A utopia de que o empregado e o funcionário pudessem dar livre extensão às suas próprias “faculdades naturais”3 permaneceu no limbo das ilusões. A humanidade não avançou para uma estrutura econômica liberta do dinheiro e do cárcere. A economia segue, impávida, alienando o trabalhador das suas possibilidades intelectuais e psíquicas.

A emancipação pelo trabalho foi um devaneio. O capital servo-assistido e o comunismo de caserna provocaram calamidades sócio-psíquicas e se mostraram incompetentes para superar o assalariamento servil. As práticas atenuantes, do Estado do Bem-estar ao coletivismo voluntário, malograram.

Os socialistas, escreveu Marx4, esperavam por um mundo em que o trabalho iria se tornar não apenas um meio de vida, mas também o maior desejo na vida. Uma fantasia da qual estamos tão distantes hoje quanto na sua época. A evolução tecnológica e as transformações da economia, ao contrário, vêm enfraquecendo ainda mais o trabalho como necessidade e como desejo.

Uma tênue esperança subsiste no ideal libertário da associação dos trabalhadores independentes. Não para liquidar o que não pode ser liquidado, não para reinventar institutos de fechamento, como os sindicatos e os sovietes, nem para constituir uma autocracia reticular, mas para defender os trabalhadores do poderio do Estado e da ganância do Capital. Este o modesto projeto anarquista da atualidade: afrouxar as malhas que servem ao Sistema. Qualquer Sistema.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 – Para além do sonho de Marx. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2021/11/17/para-alem-do-sonho-de-marx/
REFERÊNCIAS:
1 – Marx, Karl (2003) Manuscritos econômico –filosóficos de 1857-1858 – Esboços da Crítica da Economia Política. Tradução de Jesus Ranieri. São Paulo. Boitempo Editorial.
2 – Marx, Karl (2018) Le Capital, suivi du Manifeste du parti communiste. Édition Kindle Amazon.
3 – Marx, Karl (2018) Le Capital, suivi du Manifeste du parti communiste. Édition Kindle Amazon.
4 – Marx, Karl (2012) Crítica do programa de Gotha. Tradução de Rubens Enderle. São Paulo. Boitempo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s