Heurística – O terceiro espírito de Blaise Pascal.

Epistemologia.

Fragmentários, obscuros e póstumos, os Pensées de Blaise Pascal [Clermont, 1623 – Paris, 1662] granjearam fortuna diversa. Dentre os mais célebres figura o que distingue os dois “espíritos” que animariam a inteligência: o geométrico e o de finesse (não há tradução exata para o termo). Um possível terceiro espírito costuma ser desconsiderado.

O geométrico é o da auto fundamentação do discurso científico. Determina suas próprias regras e se alicerça no método experimental (Preface). O argumento é de que, não sendo possível uma demonstração absoluta, a geometria, vale dizer, a ciência deve partir de termos indefiníveis e de proposições indemonstráveis ou axiomas. O espírito geométrico refere à perspicácia fundada em raciocínios.

O de finesse baseia seus julgamentos sobre uma visão geral. Nega a progressão dos juízos (frg. 307). Considera que o número de princípios que governam o real tende para o infinito. Julga de acordo com as observações e as analogias. Diz respeito à complexidade das coisas, não ao detalhe ou à precisão. É de uso comum, dispensando regras (frg. 305). O espírito de finesse é o da visão clara para perceber os matizes e para não raciocinar falsamente sobre o estabelecido (frg. 306).

Gênio precoce – tinha 16 anos quando publicou o Tratado das Cônicas –, na maturidade Pascal renunciou à sua paixão pela ciência e ao seu interesse pelas coisas mundanas. Buscou algo além dos espíritos que havia descrito. O geométrico é duro, mecânico. O de finesse tenro, sutil. Nenhum dos dois leva à descoberta e à invenção.

Em uma parte menos conhecida dos Pensamentos, escreveu que aqueles que são capazes de inventar são raros; que se lhes nega a glória que merecem, que dão-lhes nomes ridículos, os chamando de visionários (frg. 312). Observações que insinuam a existência de um espírito sensível (frg. 471). Um espírito que animaria o ser humano, o “caniço pensante”, para apostar alto, para apostar na existência de uma ordenação divina. Um indutor do pensamento que não seria baseado na razão, mas no amor, no coeur.

Essa apologética funda o possível terceiro espírito: o daqueles acometidos pela imaginação (frg. 78). Pascal não o nomeia, mas poderíamos o chamar de espírito de sagesse, de sabedoria. Um espírito que se presta à descoberta de si, do mundo e, principalmente, de Deus. Não fora herético supor, talvez também se prestasse à Sua invenção.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2021 -Heurística – O terceiro espírito de Blaise Pascal. – A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2021/12/15/heuristica-o-terceiro-espirito-de-blaise-pascal/
REFERÊNCIAS:
Pascal, Blaise (1951) Pensées sur la Religion et sur quelques autres sujets, qui ont esté trouvées apres sa mort parmy ses papiers. Paris. Guillaume Desprez.

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