Sinestesia – faculdade heurística.

Epistemologia.

French-Poem-22Voyelles22-dArthur-Rimbaud

O primeiro verso do soneto Le Chant des Voyelles, de Rimbaud – “A noir, E blanc, I rouge, U vert, O bleu: voyelles” – representa um salto criativo. Carrega em si todas as possibilidades da poíesis, o termo grego para fabricação.

Pareceu sempre que havia ocorrido à Rimbaud um evento heurístico único e particular. Mas a neurociência, se confirma a originalidade, nega a exclusividade. Diz que a invenção de Rimbaud decorreu da sinestesia, uma faculdade natural de associar sentidos díspares.

Acredita-se que a sinestesia se deve à co-ativação de neurônios vizinhos. Cerca de 3% dos seres humanos associam letras do alfabeto à cores. O fenômeno é involuntário e pessoal – alguns pensam na letra A como azul, por exemplo -, mas é estável ao longo da vida e não necessariamente criativo.

Para compreender a ocorrência de eventos heurísticos como os de Rimbaud haveria considerar múltiplas dimensões. Primeiro, o cérebro não é somente uma máquina cognitiva e estocadora. Realiza também e simultaneamente todo um complexo de funções de expressão emocional, de regulação fisiológica, de comunicação interna e de interação com o exterior. Depois, há as diferenças pessoais que se refletem no custo energético das operações do cérebro; nas sinapses, que se dão em termos de linhas e nós, mas, também, em termos de bombas iônicas, de sínteses de lipídios etc.

Uma complexidade que, até onde podemos alcançar, veda a identificação a priori de faculdades heurísticas da ordem da sinestesia. Em que pesem os esforços da novas ciências, a genialidade continua sendo misteriosa e indomável.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Sinestesia – faculdade heurística. – A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/01/03/sinestesia-faculdade-heuristica/
REFERÊNCIAS:
Rimbaud, Arthur (2009). Œuvres complètes. Paris. Bibliothèque de la Pléiade. Éditions Gallimard.
Robertson, Lynn C. and Noam Sagiv (Ed.) (2004) Synesthesia: Perspectives from cognitive neuroscience illustrated edition. Oxford. Oxford University Press.

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