De Evas e Marias.

Perplexidades.

img_7630r_bd-c-jeremy-mathur-1a9ea18bNa antiga Mesopotâmia, a mulher era considerada uma bifurcação no agir divino. Eva não se originou de uma costela de Adão. Em aramaico expressão “ao lado” e a palavra para “costela” são homônimas. Na emergência da cultura ocidental a primazia nem mesmo foi dada a uma “culpada” Eva. A primeira mulher hebraico-adâmica se chamava Lilith.

Foi nos períodos grego arcaico e clássico que se instaurou a degradação do feminino. Às míticas amazonas, que supostamente cortariam um seio para melhor atirar com o arco guerreiro, uma tolice anatômico-balística, veio se juntar a grande poetisa Safo, tão superior aos homens que dela fizeram derivar o pejorativo safada e a isolaram na ilha de Lesbos.

Na transição para a era romana, atribuiu-se à Maria, uma grega filósofa e alquimista, que viveu no Egito por volta do ano 273 a.C., a invenção do banho-maria. Pretendeu-se diminuir seus feitos. Felizmente, os escritos preservados por Zózimo de Panópolis (ca. 300), um místico gnóstico, documentam como dela a invenção notável do kerotakis, uma espécie de forno destinado a aquecer os elementos sem os incinerar.

Lendária, mas ilustrativa, é atribuição medieval da origem do banho-maria ao suplício de Maria Mendes, judia, portuguesa, natural de Alter do Chão, que acusada de virar gato à noite, foi condenada à fogueira. Como o fogo apagava antes de atingir seu corpo, providenciou-se para que fosse cozinhada em um caldeirão imerso em um lagar de água fervente. A antropologia explica a fábula: por mandamento religioso, as mulheres judias deviam banhar-se regularmente. Higiênicas, criavam gatos que as livraram dos ratos e, com eles, da peste. Daí que se protegessem das doenças e chegassem à velhice. No imaginário aviltante do terror eclesiástico, eram bruxas. Gente que não morria.  Deviam, portanto, conhecer a fórmula da Vida Eterna, o que as tornava expiatórias ideais para os males criados pelo Deus da cristandade.

O antifeminismo greco-romano e cristão não é um precedente, mas um modelo em vigor. Marie Curie teve que dividir o Prêmio Nobel com o marido. Décadas mais tarde, sua filha mais velha Irène, também dividiu o Nobel com o seu marido. Mas à filha mais moça, Ève, uma literata de primeira linha, pianista de talento, militante antinazista e dos direitos humanos, negaram o reconhecimento dos feitos pessoais. E aqui entram as hipóteses de que Ève seria inaceitável pela saturação de prêmios à mãe e à irmã, ou por não ter um marido para dividir o reconhecimento, mas quase certamente por ser mulher. Uma das mais belas da sua época.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – De Evas e Marias. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/02/23/de-evas-e-marias/

 

REFERÊNCIAS.
Kayserling, Meyer (1971). História dos judeus em Portugal. [S.l.]. São Paulo. PioneiraLevinas, Emanuel (1984) Entretiens avec le Monde. Éditons La Découverte.Raphael Patai, (1995). The Jewish Alchemists: A history and source book. Princeton University Press.

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