A invenção do trabalho.

Trabalho.

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A Antiguidade não dispunha uma expressão unívoca para exprimir o que denominamos “trabalhar”. Em hebraico e em aramaico o termo aproximado para trabalho (avodah) é formado a partir da raiz avad (עבד), que significa escravo, servo. A palavra designa a condição de um ser humano, não o que ele faz. Em grego clássico, os verbos “poien”, “prattein” e “ergazetai”, que para nós são sinônimos, eram aplicados a atividades, moralidades, e contextos distintos. Também os romanos diferiam laborare de facere ou fabricare.

A palavra trabalho deriva do latim vulgar tripaliāre, que até o século VI significava torturar. Trepãlium era o jugo de três varas que se impunha na sujeição dos animais de serviço. Depois denotou o instrumento de varas cruzadas que esmagava os ossos das pessoas torturadas (similar ao pau-de-arara).

O semantema “trabalho” substitui “labor” no século XVIII, mas só veio a significar o esforço humano inclusivo a partir do Renascimento. Foi com John Locke que ganhou a acepção de atividade constante, regulada, cujo resultado diz respeito a outros e que visa produzir valores úteis. Aderiu ao termo inglês work, que como o alemão e holandês werk, vem do indo-europeu werg, fazer. Um significante que tem o sentido geral de transformação e que nomeia tanto o processo laboral como o seu resultado. Esse entendimento só foi questionado no século XIX, quando a equalização das mercadorias via valores monetários de troca veio a conformar o que Marx denominou “trabalho em abstrato”.

No século XX, “trabalho” passou a denotar uma atividade orientada indiferentemente para a produção, a transformação, a manipulação e o tratamento de bens materiais e imateriais, criadora de um valor econômico, que supõe: a) separação entre o esforço (a tarefa) e o resultado do esforço (o produto); b) um padrão, em geral o tempo, de medir o esforço produtivo. Uma fórmula que conotava tanto a abstração do trabalho natural, quanto a abstração dos seres humanos

Na atualidade, o conceito unívoco passou a ser fortemente questionado. Ao suprimir a relação com a natureza e a interação social, a expressão despersonaliza; ao considerar o trabalho uma atividade puramente econômica, a expressão degrada; ao pretender medir e avaliar algo que não tem parâmetro nem paradigma, a expressão desumaniza.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – A invenção do trabalho. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/04/15/a-invencao-do-trabalho/

REFERÊNCIAS.
Finley, Moses Israel, (1973) The ancient economy. Berkley. University of California Press.
Gorz, André (1988). Métamorphoses du travail: quête du sens. Paris. Éditions Galilée.
Marx, Karl (2005). O Capital. Tradução de Reginaldo Sant’Anna. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira.
Vernant, Jean Pierre e Vidal-Naquet, Pierre (1988), Travail et esclavage en Grèce ancienne. Bruxelles. Éditions Complexe.

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