Retorno à polifonia.

Perplexidades.

Na virada do século XIX para o século XX ouviram-se os acordes de uma aurora harmônica – recordemos de Nietzsche, de Proust, de Ravel, de Gaudi. Já a volta para o século XXI foi marcada pela circularidade de fecho banal. Pela taxonomia de cisão entre o conhecido e o desconhecido, entre o útil e o inútil, entre o consciente e o inesperado.

A internet tem responsabilidade na monotonia desse cantochão. Mas é possível que seja também ela que venha nos salvar. Explico. Na obra escancarada, o sentido é dado já não mais como mosaico, mas como fractal, que eternamente retorna ao “quase”, ao “talvez”, ao “ainda-não”, ao “já-não-mais”. Daí a esperança de que a saturação hipertextual da Web possa corrigir a rítmica pueril da bipolaridade.

Talvez. Nada é certo. A polifonia da música das esferas sempre foi inaudível para os humanos. As notas e acordes que podemos escutar não são perfeitos. As frequências não se encaixam com exatidão. Há sempre uma margem, uma borda oscilante que, nós, aturdidos pela cacofonia dos ruídos de fundo, teremos que reaprender a ouvir se quisermos transcender a banalidade diatônica do momento presente.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar – Retorno à polifonia. –  https://hermanoprojetos.com/2022/06/13/retorno-a-polifonia/
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