Nossas memórias.

Perplexidades.

O que genericamente denominamos “memória” congrega faculdades de características distintas. A memória motora é muito melhor do que a memória semântica. Lembramos facilmente (o nosso corpo lembra) como andar de bicicleta, ainda que não o tenhamos feito desde a adolescência, mas é difícil lembrarmos das funções trigonométricas que aprendemos na escola. A memória que temos de uma ofensa sofrida não é a mesma, ou, pelo menos não tem a mesma intensidade da lembrança de um elogio imerecido.

Re-cordamos (trazemos ao coração) situações que não vivemos: do tipo “como era bom viver na Califórnia nos anos 1980!”. Temos até mesmo uma lembrança do futuro. É comum na adolescência ocorrer a impressão de saber exatamente o que acontecerá nos momentos seguintes: o dejá-vu. Um enigma que só foi solucionado recentemente, quando Endel Tulving, um psicólogo cognitivo, pontuou a cisão entre dois tipos de memória: a semântica e a episódica. A primeira é a recordação do sentido das coisas e dos outros, as definições fixas. A lembrança de que Roma é a capital da Itália pertence à memória semântica. Já a memória episódica é muito mais concreta. Como a da recordação das sensações de uma viagem a Roma. O “já-visto” seria ligado a um mau funcionamento dessa última. Uma área do lobo temporal chamada hipocampo anteciparia o percebido, o que dá a impressão de lembrar o que se está vivendo em tempo real.

Ignoramos mais do que admitimos sobre a memória. Não sabemos sequer se a memória é parte da consciência. Por exemplo: a angústia que temos depois de um pesadelo é uma lembrança ou uma consciência residual? Ou toda lembrança é consciência residual, até mesmo as falsas lembranças? Também não explicamos o esquecimento. Por exemplo: caso o volume de informações e as tensões permanentes no mundo em que vivemos estejam nos transmudando em um ser amnésico, o esquecimento seria uma falha ou um trunfo da mente sã?

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar – Nossas memórias. –  https://hermanoprojetos.com/2022/06/27/nossas-memorias/

 

REFERÊNCIAS.
Ricœur, Paul (2007). A memória, a história, o esquecimento. Trad. Alain François. Campinas SP. Editora da Unicamp.
Tulving, Endel (1972). Episodic and semantic memory. In, Organization and memory. Endel Tulving and Wayne Donald org. London. Academic Press

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