Parâmetro e paradigma.

Ética.

Tatsuya Tanaka

A expressão “crise dos valores morais” é equivoca. O que há, de fato, é a reordenação paradigmática dos valores. Um trânsito cultural recorrente, que frusta as tentativas de parametrização.

O termo parádeigma,atos  significa padrão ou exemplo. Deriva do verbo paradeíknumi demonstrar. São paradigmáticas as variáveis fixadas arbitrariamente e que servem de modelo para outras variáveis da estrutura a que pertencem. Os valores são paradigmáticos.

O termo grego parametréó significa medir uma coisa por outra. São paramétricas as variáveis às quais se atribui uma magnitude e, por seu intermédio, se definem outras grandezas ou funções num dado sistema ou caso. As coordenadas em um eixo, por exemplo.

Quem usa termos como “perda dos valores” ou “valor financeiro” corre o risco de pensar os valores como entes mensuráveis. Uma rematada asneira. Os valores não podem ser medidos. Inexiste algo como 15% justo ou 3,35º belo. Além de incomensuráveis, os valores são incomparáveis entre si. Não há parâmetros para comparar o mais justo com o mais belo.

É certo que os valores admitem paradigmas como a beleza grega ou a justiça salomônica. Mas esses paradigmas são culturais, erráticos e mutáveis. Mesmo no campo das ciências exatas, a consagrada ideia de Khun, do paradigma como conjunto articulado de conceitos, práticas, métodos, instrumentos e técnicas que vige em uma determinada época e circunstância, entrou em crise. Ilya Prigogine – Prêmio Nobel – diz que antes havia marcos estáveis, mas que hoje o mundo da fisioquímica contém reações quânticas caracterizadas pela irreversibilidade da seta do tempo ou pela oscilação dos deslocamentos.

A crise dos valores não é uma crise no sentido estrito do termo: o momento culminante em que define a evolução de uma enfermidade para a cura ou para a morte. Trata-se apenas da reordenação dos paradigmas, uma situação frequente, que a humanidade vem aprendendo a aceitar. Se ainda no século XIX, houve a superação da ideia das Formas platônicas – modelos de tudo que é enquanto é -, pelo menos desde meados do século passado, caminha-se em direção ao consenso de que os valores morais, estando em conflito, não admitem conhecimento lógico do que seja o certo, mas apenas decisão arbitrária do que é o melhor.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Parâmetro e paradigma. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/08/03/parametro-e-paradigma/
 
REFERÊNCIAS:
Khun, Thomas S. (1989). A estrutura das revoluções científicas. Tradução de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo. Editora Perspectiva S.A.
Pessis-Pasternak, Guitta (1993) Do caos à inteligência artificial: quando os cientistas se interrogam. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo. Editora da Universidade Estadual Paulista.

 

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