O tardio.

Notas.

Ser tardio é diferente de ser envelhecido. O tardio percorre um exílio autoimposto diante do estabelecido: observação, sincronia. O envelhecido transita em uma realidade abandonada, em que nada acontece de fato: distanciamento, anacronismo.

No tardio há a consciência da dispensabilidade do ornamento, da conciliação, da interação e do reconhecimento. A recusa dos confortos da vida social, o faz adotar uma franqueza incômoda, que perturba a vida. No envelhecido, entregue a maturidade insossa, há a insistência de comparação com o passado, uma impostura constrangedora que o isola da vida.

A condição tardia não é uma preparação, nem a recuperação de algo, nem o esquecimento do que foi. É a vida consciente, com plena memória e com total ciência do momento. O tardio é um comentador inoportuno da presença. O envelhecido é um recordador maçante da ausência.

[A partir de uma resenha de Edward Said de um comentário de Theodor Adorno ao estilo tardio de Beethoven]

 

CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 –  A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar –  https://hermanoprojetos.com

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