Wittgenstein – o trabalhador imaginário.

Trabalho.

Robert Rauschenberg

Nenhuma sociedade, escreveu Wittgenstein, pode entender o que não classifica e nomeia. A palavra que denomina referentes díspares produz a incompreensão. É o que ocorre com a designação “trabalho”. O termo tem sido entendido sucessiva e simultaneamente como atividade subalterna, como exigência social, como necessidade incontornável, como emancipador econômico, como dever ético. Por contiguidade, “trabalhador” tem nomeado indiferentemente o servo, o explorado, o sustentáculo da vida, o herói e o ente destinado a satisfazer necessidades próprias e alheias.

As denominações confusas do trabalho fizeram com que da Antiguidade até o século XVIII prevalecesse a ideia aristotélica de que os que trabalham teriam que ser tutelados por não disporem de tempo, educação e condições de exercerem o comando da própria vida. As capacidades naturais dos indivíduos diferindo, o trabalho impediria o indivíduo de atingir sua excelência, que é o da contemplação filosófica.

Mesmo Kant, ao pressupor a independência e a autossuficiência econômica como condições da perfeição, retirou a “personalidade civil” dos trabalhadores, dos empregados, das mulheres e de todos aqueles que não podiam se manter por si mesmos. Convenientemente, excetuou os funcionários públicos.

Já no século XIX, a denominação equívoca fez com que Mill argumentasse pela desqualificação dos pobres e dos desempregados. Subtraiu-se a perguntar se o direito ao trabalho seria indispensável à democracia. O socialismo quis humanizar o trabalho sem o modificar, o capitalismo liberal quis explorar o trabalho sem o humanizar, a economia de mercado pretendeu explorar o trabalho sem o modificar. Ao cabo, todos tiraram o ser humano do proscênio. De fato, e o mais das vezes de direito, o termo “trabalhador” nomeou um item da massa uniforme e desprezível que é compelida a se encarregar da produção.

Wittgenstein também deixou escrito que a linguagem reflete e é refletida pela cultura. E a cultura contemporânea segue tendo o trabalhador como ente estatístico, desprovido de alma, de espirito, de vontade. É o que denuncia a linguagem socioeconômica que tem o trabalhador como um ser humano “médio”, que trabalha uma hora na agricultura, duas no comércio, quatro na burocracia. Um ser quimérico, hermafrodita, de um metro e sessenta e sete de altura, pardo, de cabelo baio e olhos furta-cor.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Wittgenstein – o trabalhador imaginário. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/08/31/wittgenstein-o-trabalhador-imaginario
REFERÊNCIAS
Aristóteles (1982). Etica a Nicômaco. In, Obras. Madrid. Aguilar de Ediciones: (1337b29)
Aristóteles (1982). Política. In, Obras. Madrid. Aguilar de Ediciones, (VII, 9, 1328 b 39 – 1329 a 2).
Kant, Immanuel (1887) The philosophy of law. Translated by W. Hastie. Edinburgh. T&T. Clark
Mill, John Stuart (2014). Considerations on Representative Government. Cap VIII. London. Parker, Son, & Bourn.
Wittgenstein, Ludwig (1998) Zettel. In The collected work of Ludwig Wittgenstein. London. Blackwell Publishers

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