Fontes da filosofia moral: Sartre: a verdade bruta e a má-fé.

Ética.

Patrick Strogulski

Escorado na fenomenologia de Heidegger, Jean-Paul Sartre assegurou que as máximas universais, os valores objetivos, os mandamentos divinos, as determinações naturais bem como as sociais denegam a verdade bruta: a de que nossa liberdade moral é irrestrita e nossa responsabilidade é absoluta.

O corolário é que não temos desculpas para nossos atos.  Essa carga nos angustia de tal forma que propendemos à má-fé. O termo “má-fé” designa a mentira que contamos para nós mesmos ao negarmos o que é dado pela imaginação e ao racionalizarmos o nosso projeto pessoal ou coletivo. A má-fé seria evitável, ou sanável, mediante a admissão dos nossos erros de conduta e de suas consequências. Uma atitude moral, que Sartre denomina “autenticidade”, e que define como a tomada de consciência de que somos livres e responsabilizáveis pelo exercício da nossa liberdade.

Os argumentos de Sartre são descritivos. A sinceridade do que propugna é duvidosa, manchada que foi por sua biografia, seja durante a ocupação nazista da França (terá agido de boa-fé ao quase colaborar?), seja pelo engajamento ao stalinismo (onde o determinismo histórico empurrado goela abaixo dos povos se encaixa na noção de liberdade?), seja por enxovalhar os que pensavam diferentemente (onde a responsabilidade no desrespeito insultante ao amigo Camus?).

Essas contradições, baixezas e covardias não invalidam os legados de Sartre ao século XXI. Primeiro, a anexação de argumentos aos que a fenomenologia e o existencialismo haviam oferecido sobre a incapacidade de as teorias morais darem conta da realidade viva. Segundo, e principalmente, a verdade crua de que sujeitos e objetos, vítimas e algozes, somos responsáveis pelo que fazemos ao mundo e a nós mesmos.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Fontes da filosofia moral: Sartre: a verdade bruta e a má-fé. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/09/23/fontes-da-filoso…-bruta-e-a-ma-fe/

 

REFERÊNCIAS.
Sartre, Jean-Paul (1976). L’être et le néant: essai d’ontologie phénoménologique. Gallimard.
Sartre, Jean-Paul (1996). L’existentialisme est un humanisme. Gallimard.
Sartre, Jean-Paul (2003). Conscience de soi. In, La transcendance de l’Ego et autres textes phénoménologiques. Vrin

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