Hobbes, o lobo do homem.

Ética.

Duas convicções estão presentes na obra de Thomas Hobbes. A do jusnaturalismo e a do contratualismo.

O jusnaturalismo se alicerça na opinião de que o fato único de termos nascido humanos nos dá o direito inalienável de cumprimos os desígnios da espécie. O próprio Hobbes assinala que existe uma dificuldade nesse entendimento: a de como conciliar a liberdade pessoal e a liberdade dos demais indivíduos. Ou seja, a de como evitar que o homem se torne lobo do homem. A solução que encontrou foi buscar em um suposto “estado da natureza”, pré-social, a chave da contenção do egoísmo típico da espécie humana. Foi cifrado nessa premissa que Hobbes defendeu sua modalidade de contratualismo: um pacto de alienação das vontades individuais a um soberano reverteria o provável estado de guerra de todos contra todos em uma ordem compartilhada.

Em que pese a lógica interna do raciocínio, o argumento não se sustenta. Primeiro, e mais evidente, porque nunca existiu um ser humano avulso, filho de chocadeira, ou criado por lobos, ou pela divindade providencial, salvo, é claro, o mítico Adão. Segundo, e decisivo, porque contra o direito natural dos seres humanos, Hobbes propôs um contrato de alienação em favor de um, e um só, ser humano: o Soberano, que conteria a sanha das individualidades pelo uso da força.

Fato é que nem o estado da natureza, nem o jusnaturalismo, nem o contrato alienante têm base empírica. São exemplos clássicos do erro lógico que consiste em derivar o dever-ser do ser, a norma do fato. Os motivos que requisitaram crédito ao esquema foram políticos. Tratava-se de abonar a ordem monárquica.

Não só por essas as razões o pluralismo ético se opõe ao contrato hobbesiano. Como ideal de harmonização, o pluralismo defende todas as liberdades, exceto as que atentem contra as liberdades de outros seres humanos, sejam naturais ou não. Daí que reivindique uma soberania acrática, regida não por uma pessoa ou grupo, mas pelo propósito único de conciliar os esforços da coletividade em favor da atenuação do sofrimento humano.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Hobbes, o lobo do homem. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensar https://hermanoprojetos.com/2022/10/12/hobbes-o-lobo-do-homem/

 

REFERÊNCIAS.
Hobbes, Thomas (1975). Leviathan, or matter, form, and power of a Commonwealth ecclesiastical and civil. London. Encyclopaedia Britannica.
Sztajnszrajber, Darío (2019) Filosofía en 11 frases. Buenos Aires. Paidós.
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