Fontes da filosofia moral – o Eclesiastes: enigma e problema.

Ética.

A Tanakh (bíblia judaica) é formada por três partes: Torá, Neviim e Ketuvin. O Eclesiastes, em hebreu Qohèlet (Patriarca), é o terceiro livro da terceira seção da última parte. O seu autor apresenta-se como “filho de David, rei em Jerusalém”, ou seja, o rei Salomão. A atribuição é falsa. A arqueologia paleográfica data o escrito de 250 aec. De modo que o autor, ou compilador da tradição, foi um hebreu erudito que certamente teve contato com a mais alta reflexão do seu tempo.

O texto do Eclesiastes é um enigma e é um problema. É curto, umas trinta páginas, e é o único escrito do Tanakh que dialoga com a filosofia da época em que foi redigido – o estoicismo, o epicurismo e o ceticismo. Esse o enigma. O problema é como, dois séculos e meio antes do advento do cristianismo, as ideias que ainda hoje influenciam a ética no Ocidente foram aceitas e absorvidas, sem que correspondessem as tradições religiosas hebraicas.

As principais dentre essas ideias constam de três inícios de parágrafo.

O primeiro deles é: “Vaidade das vaidades… tudo é vaidade…”. O termo hebraico tem o sentido do sopro, do vazio. A tradução para o latim, vanìtas, denota a insignificância da vida terrena. Foi interpretada por Sto. Agostinho como orgulho, mas o sentido rabínico é o do real enquanto evanescente: o transitório da existência humana.

O segundo início de parágrafo diz: “O sol se levanta… Toda água corre para o mar e o mar não se enche … Nada há de novo sob o céu”. O texto admite três leituras: i) é errado estimar o novo e é errôneo desejar a satisfação, uma antecipação da perspectiva cristã; ii) tudo volta, valendo a concepção cíclica do tempo, que é grega, contra a concepção judaica, que é linear (no Princípio…); e, iii) a natureza é imutável, valendo a filosofia de Parmênides.

Por último – lembrando que a série contém muitas outras ideias -, o terceiro início de parágrafo diz: “Há um tempo para tudo, para plantar e para colher ….”, a recomendação de fruir a vida tal como se apresenta, ideias até então inéditas de ausências de imputação a um deus demiurgo e de uma proposta de castigo e recompensa.

Essas concepções morais são de tal forma avançadas que Pascal se irritou e deu o Eclesiastes como a miséria do homem sem Deus. Tão profundas, que das citações que Montaigne fez gravar nas traves de sua biblioteca, treze são do Eclesiastes. Tão permanentes, que seguem advertindo aos contemporâneos de todas as épocas que a moralidade passa, que outras éticas vigerão no tempo, que tudo volta e que é sempre o mesmo, e, enfim, que a vita bella é a da construção moral de si.

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Fontes da filosofia moral – o Eclesiastes: enigma e problema. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/10/31/fontes-da-filosofia-moral-o-eclesiastes-enigma-e-problema/

Publicidade

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s