O futuro do improvável.

Perplexidades.

Na legislação romana, o testemunho era tido como uma meia prova. Dois testemunhos coincidentes formavam uma prova absoluta. Os romanos estavam errados. Primeiro, porque a possibilidade de ilusão individual ou coletiva interdita a prova absoluta por testemunho. Segundo, porque não faz sentido somar dois testemunhos. Probabilisticamente, deveriam ser multiplicados. 

As tentativas de criar indicadores e índices para conceitos como as de pobreza (linha de), bem estar (níveis de), felicidade (grau de) etc. derivam da mesma intenção do direito romano:  superar os temores de viver em um mundo errático, em que as consequências das condutas humanas são incalculáveis. A insegurança e os artificialismos que tentam apaziguá-la provocam a ampliação da quantidade e o estreitamento na qualidade das informações que temos sobre nós e a nossa circunstância. Debilidades agravadas à medida em progridem as tecnologias comunicacionais.

Com o advento da notação matemática – inventada pelos hindus, redescoberta pelos árabes e aperfeiçoada pelos europeus – os humanos pudemos pensar de forma não-humana. Passamos a raciocinar como escriturários, contadores e adeptos do probabilismo. De tal forma e com tal intensidade que nos obrigamos ao esquecimento de que a vida humana é feita de ocorrências singulares e condicionada por fenômenos culturais particulares.

É verdade que a Lei dos Grandes Números de Bernoulli tornou possível avaliar o resultado médio de muitos eventos simultâneos. No entanto, mesmo que pudéssemos medir os fenômenos humano e social, não é plausível estocar, nem possível computar os termos médios de conteúdos díspares, como os da fala, dos sentimentos, dos sonhos. O fato de estarmos nos forçando, ou sendo forçados, a falar, sentir e sonhar na limitadíssima linguagem numérica capaz de ser entendida pelos computadores e ordenada pelas redes, reflete o ponto em que nos levou as infundadas aspirações de que o mundo tenha um sentido prévio e de que a vida possa ser parametrizada.

Há séculos a economia histórica vem demonstrando que a projeção sobre o futuro da vida humana pessoal e coletiva não passa de uma fantasia irrealizável. Para que se compreenda o absurdo das tentativas desses cálculos, basta mencionar que, uma vez que 99% das espécies que já existiram estão extintas, numa avaliação probabilística todas as espécies estão extintas. Incluindo a nossa.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – De genética e de memética. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/10/17/de-genetica-e-de-memetica/

 

REFERÊNCIAS.
Harari, Yuval Noah (2015). Sapiens: Uma breve história da humanidade. Tradução Janaína Marcoantonio. Edição do Kindle. L&PM Editores.
Kahneman, Daniel; Slovic, Paul; Tvresky, Amos (1982) Judgement under uncertainty: Heuristics and biases. Cambridge. Cambridge University Press.

 

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