Voltaire contra Vaucanson – a pessoa reduzida ao indivíduo.

Trabalho.

Jacques de Vaucanson (1709 – 1782) foi um gênio criativo francês. Dentre outras coisas, inventou um tear mecânico. Movido por um asno, o tear substituía dez tecelões. François-Marie Arouet (1696-1778), conhecido como Voltaire, disse de Vaucanson que, rival de Prometeu, havia tomado o fogo dos céus para animar os corpos.

Mais tarde, em outro texto, Voltaire arrependeu-se do entusiasmo. Escreveu que a capacitação tecnológica equaliza as habilidades, tornando dispensável a perícia artesanal; que o adestramento habilita nossas mãos para cumprir as obrigações profissionais sem que precisemos decidir a cada passo o que fazer; que a tecnologia desabilita nossa mente, de modo a que trabalhemos sem pensarmos nas consequências, para nós e para os outros, do que estamos fazendo. Ao cabo, previu a obsolescência das modalidades de trabalho de raiz humanista.

Tinha razão. Desde o século XVIII, o humanismo veio sendo gradualmente substituído pelo produtivismo. Chegamos ao final do século XX sob a égide de práticas alienantes, como “dinâmicas de grupo”, “portas abertas”, “diálogo franco”, “ciclos de qualidade”, hoje superadas por outras, algorítmicas, ainda mais cruéis. Técnicas que, sem exceção, tomam o ser humano como indivíduo, não como pessoa.

A diferença é significativa. O termo “pessoa” refere àquele que tem voz (per-sonare), enquanto o termo “individuo” diz respeito à unidade mínima do corpo social: o que não mais pode ser dividido. A tecnologia capaz de ler o material a ser trabalhado além do visível, de expandir o sentido tátil e a linguagem simbólica, imaginando a obra feita e o processo produtivo completado, reduz a personalidade à individualidade.

Na hora antes do alvorecer da Revolução Industrial, máquinas como as de Vaucanson já aniquilavam a graça prometeica. Desnaturavam o trabalho, impondo formas de servo-controle e de depreciação das faculdades intelectuais a seres dotados de consciência.

 

REFERÊNCIAS:
Doyon, André e Lucien Liaigre (1966). Jacques Vaucanson, mécanicien de génie. Presses Universitaires de France.
Sennett, Richard (2009) O artífice. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro. Editora Record.
Voltaire (1887). Œuvres complètes de Voltaire. Garnier, Wikisource.

 

UTILIZE E CITE A FONTE.
CHERQUES, Hermano Roberto Thiry, 2022 – Voltaire contra Vaucanson – a pessoa reduzida ao indivíduo. A Ponte: pensar o trabalho, o trabalho de pensarhttps://hermanoprojetos.com/2022/11/16/voltaire-contra-vaucanson-a-pessoa-reduzida-ao-individuo/
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